• Prof. Eddy Jimenez 

    (É escritor e jornalista cubano e também professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Havana)

    Na manhã de hoje, nós conversávamos sobre o tema da educação. Vou fazer uma pequena referência a isto. Ao nosso juízo, não pode existir democracia se não existir educação. Não pode existir democracia sem educação por uma razão muito simples: pode haver democracia com um povo de analfabetos? Eu estou quase convencido de que não. Pode haver democracia com um povo inculto, eu creio que posso assegurar que seja impossível. Pode haver democracia se não há um mínimo de justiça social? Atrevo-me a afirmar que não. Não se pode fazer democracia num lugar onde as pessoas não saibam ler e escrever, onde as pessoas, por carecerem de recursos, vendam seus votos. Portanto, há de se partir de um preceito martiniano (de José Marti): ser culto para ser livre. É impossível a liberdade se não existir cultura. Portanto este foi o preceito que precisamente guiou a revolução cubana em seus primeiros anos: educar o homem para ser mais livre, para ser mais pleno em todos os âmbitos da vida social, econômica e democrática. 

    Sobre o tema da democracia em Cuba, e sobre o tema específico das  eleições em Cuba, há por parte dos inimigos, por parte dos Estados  Unidos, por parte das grandes agências de notícias do mundo, grandes 
    "mentiras". Em primeiro lugar se afirma que em Cuba não há democracia,  há quem, inclusive, me disse que em Cuba não existem eleições. Sim, é  bom fazer uma análise sobre como tem lugar as eleições em Cuba e como  se realiza efetivamente a democracia em Cuba. 

    Quero dizer que não penso que tudo em meu país seja perfeito. Nós  temos muito por andar, temos muito por aperfeiçoar. Porém creio, e faço  esta profissão de fé aqui, que somos muito mais perfeitos do que muitas  democracias que nos dizem - ou que dizem ao mundo - que não somos 
    democráticos. 

    Como se realizam as eleições em Cuba? Em primeiro lugar está proibido  terminantemente em Cuba que um partido, qualquer partido, o partido  comunista, apresente candidatos para as eleições. O partido comunista  cubano não apresenta candidatos para as eleições. Como se elegem os  candidatos às eleições? Eles se elegem desde a base. Cada cidade se  divide em circunscrições eleitorais de acordo à quantidade de habitantes  de uma zona. Nesta zona, em específico, o povo se reúne em Assembléia  e elege entre dois a oito candidatos - tanto a nível de município, o que  vocês chamam de vereadores, quanto a nível de província, o que vocês  chamam de estado, quanto a nível de Assembléia Nacional, que seria o  parlamento. Esses candidatos, ou esses postulantes, em número de dois a  oito, passam ao período eleitoral. Passam às eleições onde têm de  alcançar 50% mais um dos votos, para poder galgar cada um dos níveis,  município, província, Assembléia Nacional. Nestas assembléias do povo,  onde se elegem os pré-candidatos, qualquer pessoa de qualquer credo  político, de qualquer religião pode propor qualquer um, basta apenas que  a pessoa aceite ser candidato. Basta que ela aceite submeter-se às  eleições. Eleições que além disso, serão por voto livre (o voto não é  obrigatório), secreto e direto. 

    Quando se procede o ato eleitoral como tal, não é um grupo de pessoas  adultas que guarda as urnas eleitorais. Por prática, em Cuba, as urnas  eleitorais enquanto se procede a votação, são guardadas pelas crianças -  as crianças das escolas. Elas ficam observando até a hora de contar os  votos. 

    Nesta votação, pode se dar o caso que, digamos, entre cinco, seis, sete  candidatos, nenhum deles alcance 50% mais um dos votos. Se procede  então um segundo turno entre os dois aspirantes que alcançaram maior  número de votos, determinado-se quem tem 50% mais um. Isto, em  sentido geral, na base, é a essência das eleições cubanas. 

    Primeiro: todo aspirante em qualquer nível, municipal, provincial (1) ou  nacional, tem de ser, sem exceção, apresentados desde a base, e  competir com todos os candidatos que sejam propostos nesta zona. 
    Segundo: todo candidato que saia eleito em qualquer nível, participa das  decisões do nível que lhe corresponde, seja do município, do estado, da  Assembléia Nacional. Quando se chega, digamos, a Assembléia Nacional  deverá ter passado por este filtro das eleições onde deverá ter alcançado 50% mais um; qualquer candidato, inclusive Fidel Castro, sem exceção,  tem que ser proposto pela base, e competir, na base, com os outros  candidatos que foram propostos, e alcançar 50% mais um, sem exceção. 


    Nosso regime não é presidencialista. Nosso regime é parlamentarista.  Então, a Assembléia Nacional do poder popular - entenda-se, o  parlamento cubano - é o responsável máximo pelo governo do país.  Todas as leis devem ser apresentadas a este parlamento para a sua  aprovação, sem exceção. Além disso, esse parlamento, eleito desta  forma, é quem elege por sua vez o Conselho do Estado. O que é o  conselho do Estado? O Conselho do Estado é a Presidência do país e as  Vice-Presidências que, também, têm que ser eleitas por este parlamento 
    da mesma forma, 50% mais um dos votos, senão não pode ser nem 
    presidente, nem vice-presidente do país. 

    Por ser Cuba um regime parlamentar e não presidencialista, o presidente  de Cuba tem menos faculdades que qualquer outro presidente, de  qualquer outro país que tenha um regime presidencialista.Vou lhes dar um  exemplo. Em primeiro lugar, imaginemos Fidel Castro, presidente do  Conselho do Estado de Cuba. Não pode estabelecer nenhuma lei por  decreto se não tem 50% mais um da aprovação. Vou lhes dar outro  exemplo: o presidente dos EUA, Bill Clinton, pode por decreto assinar  uma lei, e depois consultar o parlamento. Pode inclusive proceder a uma  agressão militar a outro país e depois consultar o parlamento. A  constituição lhe dá essa faculdade. Em Cuba, não. Em Cuba o presidente  não tem essa faculdade. Teria que ser aprovado com 50% mais um do  Conselho do Estado. Mesmo no caso de uma emergência, se for uma lei,  deve ser aprovada pelo parlamento. Um presidente, digamos, dos EUA -  Ronald Reagan, George Busch, digamos que seja Bill Clinton - chega ao  poder às vezes com 35% dos votos de seu povo - uma votação bastante  indireta, se consideramos os que se abstém, porque geralmente a  abstenção nos EUA é de 40%. E considerando-se, além disso, os que  votam no Partido Republicano, será com 35% dos votos que um  presidente governa os EUA. Em Cuba isto jamais pode suceder. Jamais!  O presidente primeiro precisa ser eleito para o parlamento, devendo ser  eleito como deputado - alcançando os 50% mais um, e não apenas isso,  50% mais um de votação livre, secreta e direta do povo. Porém não  apenas isso, há mais! Deve ser eleito por esse parlamento com 50% mais  um dos votos, senão não chega à presidência. Que diferença! Ela é  enorme, entre esse regime parlamentarista e o regime presidencialista que  se diz o mais democrático do mundo. 

    Além disso, consideremos os setores da vida do país que estão  representados em nosso parlamento, que estão representados em nossa  Assembléia Nacional, que estão representados em nossa assembléia  municipal. Para começar, existe uma representação de todos os setores  em cada um desses níveis da vida nacional. Como não há um partido que  postule, é o povo que postula, simplesmente o povo solicita, pede a  alguém que seja seu representante. Esse alguém pode ter qualquer  tendência ideológica. Temos em todo o parlamento cubano a  representação de todos os setores da vida do país. Vou lhes dar um  exemplo. Há quem diz: não se trata de um regime comunista. Ao nosso  parlamento tem sido eleitos, desde a base, escritores de filiação  católica-apostólica-romana, famosos escritores cubanos que disputaram a  Assembléia Nacional e foram eleitos pela base do povo. Existe também  parlamentares que são de religião protestante, existe um reverendo, o  reverendo Raul Soarez, protestante, que disputou a Assembléia Nacional  da tribuna popular - eleito desde a base. Existem artistas, desportistas,  médicos, trabalhadores - uma infinidade de trabalhadores. Todos os  setores do país estão representados neste parlamento. E eu me pergunto,  não é isso muito mais democrático do que um partido postular a um  candidato, que afinal de contas não conhece, não conhece a sua vida,  não conhece sua obra, o serviço que faz - e que simplesmente o  apresenta como candidato de um partido, e que o povo tenha que 
    escolher entre o que um partido e o que outro partido lhe apresentam,  sem ter a oportunidade de que ele mesmo (o povo) selecione quem o  represente ? 

    Em Cuba, não existe campanha política. Está proibido fazer campanha  política. Vocês sabem qual é a única campanha política que se aceita em  Cuba? Eu vou lhes dizer. Uma vez que os vizinhos se reúnem na  Assembléia nas distintas zonas, nos distintos lugares, nas distintas  circunscrições, cada um, tendo escolhido o seu candidato, apresenta uma  biografia de sua vida, desde quando era pequeno até o momento da  eleição: quem é, onde trabalha, o que tem feito pelo país, se foi julgado  alguma vez, se não tem delito, onde milita - se é católico, se é evangélico,  se é comunista. Como é sua vida, o que tem feito pelo país. É  considerando-se essa biografia que se faz daquela pessoa que foi  proposta, que o povo escolhe quem melhor vai lhe representar. Nenhum  centavo, nenhum peso é dedicado às eleições em Cuba. As eleições não  são um carnaval, mas um ato democrático muito sério, em que o cidadão  vai escolher quem vai lhe representar, digamos, a nível de município, onde  as eleições se realizam a cada dois anos, ou a nível nacional, para a  Assembléia Nacional, onde as eleições se realizam a cada cinco anos. 

    Porém, há algo mais na democracia cubana. Uma vez eleita a pessoa, em 
    qualquer nível, municipal, provincial ou à Assembléia Nacional, qualquer 
    destes deputados que foi eleito pelo povo pode simplesmente ser 
    destituído pelo mesmo povo que o aprovou. Imediatamente se conclua 
    um ato de corrupção, imediatamente o mesmo povo, a mesma base que o 
    propôs, pode convocar uma outra reunião e retirar seu apoio, isto em 
    qualquer nível. Se não fosse assim, poderia ocorrer que um fenômeno de 
    corrupção fique simplesmente esquecido, que passe o mandato, e esse 
    homem siga desfrutando de todas as suas prerrogativas. Se se descobre 
    um ato de corrupção, se se descobre um ato que viole as leis do país, 
    este processo de destituição pode dar-se desde a base pela proposição 
    do povo, ou pode dar-se desde a proposição dos mais altos níveis da 
    Assembléia Nacional, e da Assembléia Provincial. Imediatamente ao 
    surgimento da proposta se discute com o povo, e esse homem é 
    destituído, porque não pode existir um corrupto em uma Assembléia 
    Nacional, não pode existir um corrupto na Assembléia Provincial, não 
    pode existir um corrupto a nível de município. 

    Parece-me que é muito mais democrático, porque ademais os 
    parlamentares não gozam, em nenhum momento, de privilégios, não têm 
    imunidade. E vocês sabem quanto ganha um parlamentar em Cuba? Que 
    dinheiro recebe um parlamentar em Cuba? Recebe o mesmo salário que 
    tinha na hora que foi eleito. Se esse homem que foi eleito pelo povo para 
    representá-lo é um médico que ganhava quatrocentos pesos na hora de 
    sua eleição, segue ganhando como parlamentar os mesmos 400 pesos 
    que ganhava naquele momento. Se esse homem é um simples trabalhador 
    e ganhava 200 pesos - salário médio de Cuba -, não importa que seja 
    deputado à Assembléia Nacional, seu salário segue sendo 200 pesos, por 
    que nós não temos políticos profissionais. Não aceitamos ter políticos 
    profissionais. Temos representantes do povo, e como tal têm que se 
    comportar. 

    Eu não quero fazer apologias. Penso e reitero que temos muito a 
    aperfeiçoar, mas trata-se de um experimento novo no mundo. Por muitas 
    razões, em primeiro lugar porque não nos parecemos ao sistema que 
    havia a Europa do Leste. Na Europa do Leste, era o partido quem 
    propunha um dirigente, um deputado à Assembléia Nacional, um 
    deputado à Assembléia Municipal.Eles também propunham um candidato 
    único, o que poderia ser considerado como a corrida de um só cavalo. 
    Em Cuba isto jamais ocorre. Existe uma grande diferença. Nós estamos 
    ensaiando um novo modelo de democracia, e portanto, todo modelo 
    novo tem que ser melhorado, tem que ser corrigido, tem que melhorar. 
    Agora, creio honestamente, que estamos muito acima da chamada 
    democracia ocidental, que hoje se trata de impor a todos os povos. 
    Porém, há algo mais além disso, e isso é algo de muito importante: o que 
    se entende por democracia? O que se entende por participação 
    democrática? Pode um norte-americano - vou seguir colocando como 
    exemplo os EUA - que trata sempre de sustentar para o mundo que nós  
    (os cubanos) não temos democracia... Pode um norte-americano decidir, 
    um norte-americano simples, que leis se votam em seu país? Pode? Tem 
    mecanismos? Que mecanismos têm? Nenhum? Pensemos: se permitem 
    essa democracia, se se concretiza em um voto, a pessoa votou, e daí já 
    não exerce nenhum poder. O partido do qual saiu eleito este indivíduo, 
    esse político é quem decide que política seguir. Mas, não é apenas isto, 
    na realidade este não é um partido e sim são as grandes corporações e os 
    grandes interesses econômicos que determinam que leis irão votar. Nem 
    sequer é um partido. Em Cuba, isto não se dá. 

    Em Cuba isso não se dá por várias razões. Em primeiro lugar porque 
    toda pessoa que tenha sido eleita desde a base para um cargo de direção,  
    tem a obrigação de reunir-se semestralmente com os eleitores que os 
    elegeram, com os eleitores que nele votaram, e explicar-lhes o que fez 
    nesses seis meses, o que tem sido sua política, como tem solucionado os 
    problemas que os eleitores haviam apresentados a ele. E tem que, ainda, 
    semanalmente, destinar um dia - ou uma noite - para receber seus 
    eleitores, possibilitando-se que seus eleitores venham a ele para 
    apresentar dúvidas, para apresentar queixas, para apresentar sugestões; e 
    deve atendê-los e dar-lhes soluções sobre estes problemas que se lhe 
    apresentam. Isto, semanalmente. Qualquer cidadão tem o direito de 
    encontrar-se com esse homem que elegeu, e de dar opiniões sobre os 
    temas mais diversos do país, que pode ser um problema enorme a nível 
    de nação até um problema mais simples da comunidade. E eu me 
    pergunto, quando um senador sai eleito em qualquer país, EUA por 
    exemplo, este senador semanalmente se senta em um escritório para 
    receber aqueles eleitores que votaram nele, para ver que problemas têm, 
    que dúvidas, como solucionar seus assuntos? Não o fazem. Nenhum! Se 
    acham grandes senhores. Eles se reúnem semestralmente em massivas 
    Assembléias, com todos os seus eleitores, para dar conta do que tem 
    feito? Não o fazem. Em Cuba se faz! E isso é democracia! Qualquer um 
    pode levantar a mão e impugná-lo. Porém, ainda mais! Se alguém 
    comprovar que (o dirigente) tenha dado um mal passo, que tenha 
    cometido erros etc., se alguém conseguir provar, e se nessa Assembléia 
    em que semestralmente se reúnem com ele, este povo determina que não 
    tem feito um bom trabalho, que o trabalho foi muito ruim, nesse momento 
    essa Assembléia pode pedir sua substituição e eleger outro em seu lugar. 
    Isso é democracia. Uma democracia bem diferente daquela que o 
    Primeiro Mundo trata de incutir no Terceiro Mundo. 

    Vamos, inclusive, mais além. Consideremos o âmbito da participação 
    popular nas decisões das leis. Em Cuba, para que uma lei seja aprovada 
    pela Assembléia Nacional do Poder Popular, primeiro, nas leis de 
    importância - não vamos falar de desviar o trânsito para uma rua, ou de 
    uma multa de trânsito a alguém que infringe uma lei do trânsito, que vai 
    aumentar a multa de 10 para 20 pesos, isso não, isso seria um absurdo - , 
    mas uma lei de importância nacional, todas, sem exceção, antes de serem 
    aprovadas pela Assembléia Nacional, têm que ser discutidas pelo povo. 
    Discutidas pelo povo nos centros de trabalho, discutidas pelo povo nos 
    bairros das circunscrições, e daí, desse projeto de lei que se apresenta ao 
    povo surgem mudanças, todos os tipos de modificações, leis que inclusive 
    variam em sua essência. E quando são recolhidos todos os critérios da 
    população e são tomados em conta, é que essas leis passam para a 
    Assembléia Nacional para a sua aprovação. Passam pela Assembléia 
    Nacional e depois de aprovada, inclusive, passam no Conselho do 
    Estado para confirmá-las e colocá-las em vigor. Isto é participação 
    popular, isto é democracia! Mas o que se dá no parlamento americano? 
    Discutem as leis a implementar no congresso de seu país? Quem tem (do 
    povo) essa oportunidade? E dizem que é a democracia mais perfeita que 
    existe no mundo. 

    Porém, falemos também a nível de trabalhador, a nível de fábrica. São os 
    trabalhadores em Cuba quem discute os problemas de sua fábrica, de 
    seu plano de produção: sobre o que fazer, sobre como melhorar. A 
    administração tem que levar em conta os critérios de seus trabalhadores. 
    É isto que chamamos em Cuba de Parlamentos dos Trabalhadores, 
    deslocando-nos dos assuntos macropolíticos, neste outro nível, a nível de 
    fábrica, ocorre isso (os Parlamentos dos Trabalhadores): as decisões 
    clássicas de uma unidade trabalho quem as toma são os trabalhadores, 
    eles respeitam sua direção, mas as soluções são dos trabalhadores. 

    Eu não quero estender-me no tema, penso que vocês têm uma infinidade 
    de perguntas. Somente sintetizei a matéria para garantir a participação de 
    vocês, para que tenham oportunidades de fazerem perguntas. 


    DEBATE 

    QUESTÃO: Você falou que uma zonal, um território, tem de 2 a 8 
    candidatos, e é eleito quem tem 51% dos votos, então em cada região só 
    é possível eleger apenas uma pessoa? 

    JIMENEZ: O número de representantes eleitos depende da quantidade 
    de habitantes que reside nas zonas, uma vez que um município se divide 
    por zonas. 

    QUESTÃO: Outra pergunta. É sobre a elaboração das políticas do 
    Estado e não das leis necessariamente. Por exemplo, a política de saúde, 
    de transporte... Existe alguma forma de participação popular nas 
    discussões de como vai ser e como tem que ser? 

    JIMENEZ: Nosso parlamento, como qualquer outro, se divide em 
    comissões. Como se faz isso? Na comissão de saúde, por exemplo, 
    foram eleitos 5 ou 6 médicos - como é lógico os médicos formam essa 
    comissão como uma parte da comissão parlamentária que atende aos 
    temas da saúde, isso para começar. Na elaboração das leis para serem 
    discutidas com o povo faz-se essa comissão especializada. Há algo mais, 
    isto a nível macro, mas a nível do povo, em cada uma dessas 
    circunscrições o povo decide também sua própria política de saúde. Quer 
    dizer, o delegado do poder popular, eleito nesta circunscrição, por esse 
    número de habitantes, é encarregado de que os serviços de educação, de 
    saúde, de alimentação, enfim todos os serviços para esta população, 
    funcione nesse nível. Qualquer cidadão desta circunscrição tem o direito e 
    o dever de propor qualquer idéia, qualquer sugestão, a nível de 
    município, e este parlamentar municipal tem que dar solução a este 
    problema, seja de qualquer de nível, seja de um médico da família, seja 
    de um policlínico, porque tem o dever de melhorar o nível de vida do 
    povo desta zona. Se o problema for de outro nível, do nível da Província 
    ou do nível do Estado, a proposta sai da base, ou pode sair desta 
    comissão de saúde da Assembléia. Há um duplo caminho: o caminho da 
    superestrutura à base - através desta comissão -, e o caminho da base à 
    superestrutura. As idéias podem surgir em ambos sentidos, porque há 
    uma retroalimentação. 

    QUESTÃO: Com relação ao tempo de mandato na esfera municipal, 
    província e Assembléia, qual é o tempo do mandato? Já no processo de 
    aprendizado, está embutida a política nas disciplinas escolares? 

    JIMENEZ: Quanto à primeira pergunta, como já havia dito, as eleições 
    municipais em Cuba se efetuam a cada dois anos e as eleições para a 
    Assembléia nacional se efetuam a cada cinco anos, para o parlamento. As 
    últimas eleições municipais que se efetuaram em Cuba foi no ano passado 
    em 24 de fevereiro. As próximas eleições nacionais para o parlamento 
    deverão ser realizadas em 1998. Quanto à segunda pergunta, se o 
    ensinamento nas escolas sobre o sistema eleitoral cubano, sobre a política 
    e democracia, se ele é específico... A nível primário isso não se dá. Se dá 
    a nível secundário como parte da formação histórico-social do aluno. A 
    nível primário se dá uma aprendizagem na prática, pois eu reitero que são 
    as crianças, em Cuba, que cuidam das urnas eleitorais, essas crianças 
    cuidam dos colégios eleitorais, essas crianças se imbricam na sociedade 
    por essa prática, não votam, mas participam. Estão se habituando a 
    exercer na prática essa democracia, porém não há um conteúdo 
    programático (2) específico a nível primário, cremos que isso não seja 
    necessário com as crianças. Talvez devesse haver... Eu sou um dos que 
    tem acreditado que isso se faz por merecer num momento determinado, 
    pelo menos na quinta ou sexta serie (3) . Penso que seria saudável 
    empreender esta tarefa no futuro por uma razão, porque agora temos 
    muito mais influencia externa do que tínhamos há 4 ou 5 anos atrás. 
    Talvez seria bom educar já às crianças, de forma teórica, sobre este tema. Poderia pensar-se que é necessário. Não se politiza em excesso. 

    QUESTÃO: Eu tenho duas questões. Uma delas é com relação à 
    destituição dos eleitos. Se na Assembléia semestral a comunidade decidiu 
    que aquela pessoa que foi eleita deve ser destituída, como é que outra 
    pessoa é eleita no lugar ? Ela vai cumprir um mandato que a anterior 
    deveria cumprir? A outra questão é sobre a faixa etária dos eleitores. A 
    partir de quantos anos se começa a votar em Cuba? Aqui no Brasil era 
    18 anos e passou para 16... 

    JIMENEZ: Primeiro: 16 anos em Cuba. Segundo. Quando um delegado 
    do poder popular é destituído numa reunião de base, há que se 
    convocar uma nova eleição e se propor novos nomes, novos candidatos, 
    e se promoverá novamente a eleição pelo voto livre, secreto e direto. 
    Quanto ao mandato, o novo eleito apenas complementa o mandato do 
    outro que foi destituído. 

    QUESTÃO: Quando você fala em democracia, logo a gente associa no 
    Brasil, a idéia de três poderes livres, independentes e autônomos. Eu 
    gostaria que o senhor colocasse alguma coisa com relação ao poder 
    judiciário do Estado Cubano, as formas de constituição das cortes de 
    justiça e os níveis de jurisdição. E se for possível alguma coisa, um 
    resumo rápido da tramitação de um processo comum criminal. 

    JIMENEZ: Em Cuba existe o que nós chamamos de juizes leigos. O juiz 
    leigo não é um jurista, é um homem eleito pelo povo, um homem com 
    capacidade, com nível, e o povo se reúne e o elege como seu 
    representante. Esse juiz leigo participa em todos os juízos junto aos 
    juristas profissionais. Porque se faz isso? Isto se faz, em primeiro lugar, 
    para não imprimir nenhum juízo, nenhum critério totalmente tecnocrata, 
    nenhum conceito da jurisprudência, mecânico, sem ter a oportunidade de 
    alguém do povo, com nível, que não tenha essa concepção totalmente 
    jurista, seja capaz de opinar nesse tribunal; seja capaz de opinar sobre 
    problemas humanos e não somente sobre problemas legais. 
    Quando alguém comete um delito em Cuba, ele é levado, como é lógico, 
    a um juízo - um juízo a nível de município que pode impor-lhe sanções. 
    Esse indivíduo pode apelar para uma instância de apelação a nível de 
    província (o que vocês chamam de estado), e se alguém fala contra ele, 
    ele tem uma terceira apelação que é a nível nacional - está é inapelável. 
    Se tem três juízos de base, se tem três opções. Em todo caso, o acusado 
    tem direito a nomear um advogado defensor, e se não nomear, põe-se um 
    advogado de ofício que tem que atender em juízo, como defensor do 
    acusado, da mesma forma que tem que haver um fiscal, um acusador. Isto 
    é em essência. Esse tema pode ser que seja o terceiro poder, que é o 
    poder judicial , sem dúvida. Para nós não existe desta forma, havendo 
    uma maior participação popular e não somente uma coisa técnica no trato 
    das leis. Existe, digamos, a nível de fábricas, a nível de centros de 
    trabalho, companheiros que também fazem juízo de tipo laboral, para os 
    infratores as leis trabalhistas. Se um trabalhador comete uma indisciplina, 
    a administração não pode imediatamente impor-lhe uma sanção, não 
    pode despedi-lo da fábrica. Primeiro tem que reunir-se com esses 
    trabalhadores que compõem o tribunal da fábrica e julgar esse 
    trabalhador, e propor uma sanção. A administração pode dizer, bem você está suspenso do emprego e do salário durante seis meses, e chegar ao tribunal de trabalhadores e eles dizerem que a administração se 
    equivocou, que não será seis meses; que esse homem cometeu um erro 
    mas a pena é de um mês. E a administração tem que obedecer, porque é 
    assegurado que o trabalhador tenha que aceitá-lo. 

    QUESTÃO: E estes profissionais são vitalícios? 

    JIMENEZ: Não. Criar uma elite que vai ministrar uma justiça em nome de 
    quem? Esse erro não se pode cometer jamais! Um juiz pode ser 
    destituído simplesmente em 24 horas, ainda mais que você pode acudir à 
    repartição fiscal (4) , que é outro método que temos. Você pode acudir à 
    repartição fiscal para acusar inclusive ao juiz, é um direito que o cidadão 
    também tem. Fala-se muito que há poucas liberdades pessoais em Cuba, 
    e eu lhe digo, Cuba é um dos poucos países que podem dizer para o 
    mundo, com a consciência limpa, que nós não temos desaparecidos em 
    Cuba; nós não temos em Cuba presos torturados, nós não temos em 
    Cuba presos por delito de opinião; isso não existe em Cuba. Não está 
    contemplado em nossa constituição. Além disso, sobre a polícia... Todos 
    os países do mundo tem um poder repressivo. Mas em Cuba não podem 
    chegar na minha casa e entrar. Primeiro têm que vir com uma ordem da 
    repartição fiscal para poderem entrar em minha casa; do contrário eu sou 
    muito livre para dizer-lhes: não entrem. E não entram. Respeitam-se os 
    direitos dos cidadãos, inclusive esse direito de privacidade. Os órgãos 
    repressivos primeiro têm que se dirigir à lei para poder me deter e para 
    poder entrar em minha casa. É preciso ter uma ordem de detenção. 

    QUESTÃO: A gente sabe que uma das coisas que os EUA, os 
    americanos, usam para defender a questão do bloqueio, um dos 
    argumentos deles é que Fidel Castro é realmente um ditador em Cuba. Eu 
    tive oportunidade de ver lá em Cuba que todos os cubanos, uns chamam 
    Fidel de presidente, outros de nosso comandante. A minha pergunta é, se 
    existe o parlamento, como se dá a eleição do comandante, se ele tem um 
    posto garantido, se ele é o chefe do exército cubano, ou se em 5 em 5 
    anos ele também é submetido a essa eleição, a esse 50% mais um dos 
    votos pra se eleger? E junto com esse Conselho, eu gostaria de saber o 
    seguinte: ele se submete ao Conselho, aí ele se elege, aí os ministros (do 
    Trabalho, etc.) são indicados pôr ele, e se os ministros também são 
    eleitos? 

    JIMENEZ: Olhe. Fidel Castro e todos, sem exceção, tem que 
    submeter-se ao voto da base. Tem que primeiro integrar-se à Assembléia 
    popular como parlamentar, portanto tem que ser proposto desde a base e 
    eleito pela base com 50% mais um dos votos em uma circunscrição, 
    senão não passa ao parlamento. Nas últimas eleições gerais para o 
    Parlamento, na zona em que foi proposto Fidel Castro como parlamentar 
    à Assembléia nacional, na circunscrição em que foi proposto, Fidel 
    alcançou 96,7% dos votos de sua circunscrição, de sua zona, para 
    deputado. Primeiro tem que passar por esse filtro, Fidel Castro e todos, 
    sem exceção. Fidel Castro não tem nenhuma prerrogativa, não é eleito 
    diretamente pôr ninguém. Tem que passar pelo povo, nessa primeira fase. 
    Isto para começar. Nisto eu sou completamente honesto. É muito difícil 
    competir com Fidel Castro em uma base.A lei exige que sejam Propostos de 2 a 8. Imagine que eu sou de Birán, que é uma área que faz parte da província de Holguín, e me propõem à eleições e que Fidel também é proposto em Birán - que é sua região natal, por exemplo - e nisto não há 
    problema, porque Fidel Castro não pode ir sozinho para a eleição. O 
    povo tem a força de propor de 2 a 8. Fidel é de Birán, e eu estou 
    convencido que vou perder a eleição. Estou convencido, isto é real. E 
    estou convencido por uma razão lógica, Fidel é um líder, não apenas em 
    Birán, Fidel é um líder nacional; as pessoas vão votar neste líder, porque 
    um líder não se fabrica, e eu não sou um líder. Mesmo assim ele tem que 
    submeter-se a essa base. Porém, além disso, cada vez que o deputado 
    tenha que submeter-se ao voto do parlamento para poder ser eleito 
    presidente, tem que ter 50% mais um dos votos, senão não é presidente. 
    Não há nenhuma prerrogativa especial. Tem que ser eleito por esse 
    parlamento. E quando chega ao Conselho do Estado, este parlamento é 
    que propõe o Conselho do Estado e os Vice-Presidentes, que se reúnem 
    e determinam de todos os que foram eleitos quem é o Presidente, e tem 
    que ter 50% mais um deste Conselho do Estado para ser o Presidente. 
    Mas eu reitero, é muito difícil competir com Fidel Castro, eu até diria que 
    é impossível, sou totalmente honesto, porque ele é o líder de Cuba, e um 
    líder não se cria, um líder se nasce. Você não cria um líder por decreto. 
    Se você tem apoio do povo ele vota em você, vai preferir votar em você 
    do que votar em outro. 


    QUESTÃO: Na verdade eu quero fazer mais um comentário do que uma 
    questão. Eu acho que democracia em Cuba ela é inquestionável, 
    diferentemente da democracia burguesa como a do Brasil, que 
    infelizmente existe no resto do mundo. Um exemplo disso é que nós 
    temos atualmente que engolir a reeleição do atual presidente da 
    República, FHC, que representa o neoliberalismo no Brasil, que 
    representa as forças mais reacionárias, retrógradas hoje de nosso país. O 
    que nós temos que fazer neste debate, acho que essa discussão é super 
    interessante inclusive para reafirmar a solidariedade dos trabalhadores, da 
    lideranças sindicais, das lideranças partidárias comprometidas, com a 
    libertação do nosso povo, nós temos na verdade que reafirmar o apoio 
    solidário a Cuba e, inclusive, acho que saudar mais uma vez a revolução 
    de Cuba, que vem triunfando. O exemplo da participação popular, da 
    qual nós falamos tanto aqui em participação popular... Lá em Cuba todo 
    os trabalhadores, todo o povo, começa a discutir e elege pessoas a partir 
    de seus locais, e chega à eleição de seu presidente - o referendo de 
    96,7% a Fidel Castro é na verdade um exemplo claro do apoio popular e 
    do reconhecimento de Cuba, da revolução. Acho que Fidel levanta uma 
    questão: existe o partido da revolução e o partido da contra revolução, 
    acho que os contra-revolucionários ainda existem em grande quantidade, 
    exemplo disso são o governo dos EUA e seu bloqueio. Creio que a gente  
    tem que ficar do lado do partido da revolução. 

    JIMENEZ: Há algo que me esqueci de responder sobre o governo de 
    Cuba, sobre os Ministros de Cuba. Os Ministros são nomeados pelo 
    Conselho do Estado. Este é um aparato legislativo. Um ministro pode ser 
    substituído a qualquer momento pelo Conselho do Estado ou pelo 
    parlamento. 

    QUESTÃO: Em alguns países os criminosos são punidos com a pena 
    máxima que é a pena de morte. Eu queria saber, em Cuba, como é a 
    pena máxima pra delitos. 

    JIMENEZ: Isto é importante. Em Cuba nós contemplamos a pena 
    máxima pôr duas razões, na constituição. A contemplamos pelo que nós 
    chamamos de crime horrendos. Um crime horrendo é aquele em que um 
    indivíduo assassina uma anciã, assassina uma criança, violentando-a e 
    matando-a; assassinar uma pessoa indefesa, isto pode ser contemplado 
    como um crime horrendo e pode ser causa de pena de morte. Essa é a 
    primeira causa para que se possa condenar à pena de morte uma pessoa. 
    Essa pessoa que é condenada a morte, não se trata, para esclarecer, de 
    alguém que assassina a outro em uma briga, ou que assassinou inclusive 
    para roubar. Não, isso não é um crime horrendo. Esse homem pode 
    pegar 20 anos de prisão, etc. O crime horrendo é aquele que emociona a 
    sociedade e que não se pode permitir, e quando ocorre em Cuba, o que é 
    muito raro, mas quando ocorre se lhe reprime com força, porque não 
    podemos estar educando nossa sociedade na violência. Assassinar uma 
    anciã, violentar uma criança... - isto sim pode sofre a sanção de pena 
    máxima. Quando essa pessoa é condenada à morte, por crime horrendo, 
    pode apelar à máxima instância, ao tribunal supremo, o Tribunal Nacional. 
    O acusado é julgado pela província e não pelo município. Então ele é 
    julgado pelo maior nível, o nacional. E se ainda assim é ratificada a 
    sentença de morte por esta instância suprema nacional, tem ainda que ser 
    aprovado pelo Conselho do Estado, pelo Presidente da República e os 
    Vice-Presidentes que têm que aprovar essa pena de morte com 50% 
    mais um. Toda pena de morte tem que ser aprovada e tem que ser 
    firmada pelo Presidente do país, que é a última instância que pode ditar a 
    clemência. 

    A segunda causa é mais relacionada com os militares e com os tribunais 
    militares, que é o delito de traição à pátria. Entenda-se pôr traição à 
    pátria o militar que vende informações ao inimigo, que fornece 
    informações. Que se tenha rendido ao inimigo para nós é uma traição 
    completa; esse indivíduo pode ser julgado por uma corte militar e 
    sancionar a pena de morte. São os dois únicos casos que nossa 
    constituição aceita como pena de morte. São excepcionais, porém 
    ocorrem. 


    QUESTÃO: Professor, como é que surgiu esta história do "Paredón"? 

    JIMENEZ: Como surge o "paredón" em Cuba. Moça, nós chegamos ao 
    poder em primeiro de janeiro de 1959, depois de lutar seis anos contra 
    um ditador militar muito sanguinário em Cuba - Fulgêncio Baptista . Um 
    ditador que causou a morte de 20.000 cubanos. Desgraçadamente, tenho 
    que dizer assim, a maioria dos torturadores, dos assassinos do país 
    conseguiram fugir, conseguiram fugir para os EUA e foram muito bem 
    acolhidos, chegaram com seus milhões, com aviões repletos de dinheiro, 
    saquearam o Tesouro Nacional antes de irem. Porém houve quem não 
    conseguiu ir. Estes foram julgados e condenado à morte. Todos os 
    torturadores, todos os assassinos, foram condenados à morte. 
    Desgraçadamente a maioria dos torturadores e assassinos se foi, porque 
    senão teríamos fuzilados quinhentos mais, os que ficaram foram fuzilados. 
    Os julgamentos mais importantes foram televisionados para o país, e os 
    acusadores contra estes torturadores, contra esses criminosos, foi o 
    próprio povo, os sobreviventes da tortura, os familiares dos mortos e 
    tudo isso televisionado para todo o país. Tiveram direito a um advogado 
    defensor, tiveram essa oportunidade de ter um advogado defensor, porém 
    se foi duro, se foi bastante inflexível, o foi porque um país que lutou 
    durante seis anos e que teve 20.000 mortos não podia aceitar uma lei de 
    perdão. Isso é hipocrisia! Isso é hipocrisia porque havia muitas crianças 
    mortas! Isso é hipocrisia porque havia muitas mães chorando! O povo 
    cubano era o primeiro que não iria admitir. Haveria que se fazer justiça! E 
    havia que fazer justiça para que jamais, para que nunca mais em Cuba 
    houvesse ditadura. Para que aquele que pensasse em ser ditador outra 
    vez, soubesse que iria esperar o dia em que fosse derrubado. E daí surgiu 
    a história do "paredón". História do "paredón" que foi muito utilizada 
    pelos Estados Unidos contra Cuba; história do "paredón" que se disse 
    que foi uma violação dos direitos humanos, como se tirar as unhas ou 
    arrancar os testículos não ferisse direitos humanos. O torturador, o que 
    moveu a tortura não é vítima dos direitos humanos? Havia de se fazer 
    justiça... Esse foi um dos primeiros enfrentamentos precisamente com os 
    EUA, que nós estávamos fuzilando a todo este tipo de gente. Porém os 
    EUA não tinha moral alguma para dizer-nos isso. Porque os EUA, esteve 
    seis anos mantendo essa ditadura militar, dando-lhes armas, aviões, 
    dando-lhes dinheiro para matar o povo. Desde a base na Bahia de 
    Guantânamo, no território cubano, saiam as armas, saiam os aviões para 
    bombardear a Sierra Maestra e os povoados cubanos. Com que moral 
    vem nos julgar por violar os direitos humanos se eles é quem estavam 
    violando? Eles simplesmente estavam defendendo os seus instrumentos 
    em Cuba, as suas pessoas em Cuba, os seus assassinos em Cuba. Nós 
    não estávamos dispostos a isto. Esta é a história do "paredón". 

    QUESTÃO: Eu lembro que uma vez, ouvindo um discurso do Fidel na 
    Voz de Cuba, talvez eu tenha entendido equivocadamente, Fidel disse 
    num dado momento para os americanos que se eles invadissem Cuba, 
    que cada peito de cada cubano seria um canhão, e ao mesmo tempo 
    afirmou que a doutrina seguida em Cuba é a doutrina política 
    marxista-leninista. Se fosse possível o senhor fazer uma breve síntese do 
    que seja o marxismo-leninismo sem deixar muito complexo, e se isso que 
    o senhor falou das eleições tem base, completamente, na teoria 
    marxista-leninista. 

    JIMENEZ: O marxismo-leninismo, tomando como base a democracia 
    em Cuba... Nós queremos dizer que a base da democracia cubana é 
    marxista-leninista, e cremos que seja assim pelo seguinte. Já Marx, 
    inclusive Lenin, fizeram um projeto social, foram engenheiros, foram 
    pensadores que trataram de ordenar a sociedade sobre uma base. Porém, 
    nem Karl Marx nem Lenin determinaram o que fazer em cada caso 
    particular. Eles simplesmente apresentaram projetos programáticos - 
    inclusive Lenin, porque Lenin chega ao poder. Ele consegue ser líder de 
    uma revolução. Porém Lenin governou muito pouco na URSS. É pena, 
    mas morre no princípio do processo revolucionário, que foi a grande 
    desgraça desse processo socialista. A partir deste momento começa-se a 
    tergiversar tudo. Nós cremos que partimos de uma base marxista-leninista 
    que precisamente trata ou considera (5) a igualdade. Afirma a igualdade 
    entre os homens. Considera um sistema democrático superior. O que se 
    passa é que nós não copiamos integralmente o que colocam Marx e 
    Lenin, por que nós temos nossa própria realidade. Nós não podemos nos 
    deter no século passado, na época de Marx. Não podemos nos deter no 
    princípio deste século nem, menos ainda, na realidade da Europa. O 
    Cardenal nos falou de um fenômeno interessante - me perdoem aqui se 
    existe muitas tendências políticas, eu não quero ofender a ninguém -, que 
    o grande problema da esquerda, dos marxistas-leninistas é que eles 
    copiaram muito. Copiaram muito de uma realidade que não é nossa. Nós 
    temos nos convertido, durante décadas, em eurocentristas. O centro de 
    nosso pensamento não está na América, não está em nossa realidade 
    objetiva, tem estado na Europa. Se temos um pouco de memória, se 
    lemos um pouco, nos damos conta de que Karl Marx - com todo o 
    respeito que merece Karl Marx, há que estudá-lo simplesmente porque é 
    a base, e isso eu retomo, porém ele colocava, digamos, que Bolívar era 
    um caudilho - e isso não tem problema. Vocês sabem porque ele afirmava 
    isto, que Bolívar era um caudilho? Simplesmente porque Marx não era 
    latino-americano; era europeu e estava julgando a Bolívar a partir da ótica 
    da Europa e não através da ótica da realidade latino-americana. E daí a 
    importância de se voltar ao marxismo-leninismo, tomando-se como base 
    o marxismo-leninismo mas voltando-nos à nossa realidade. Voltarmo-nos 
    para um Mariátegui, voltarmo-nos para um Julio Antonio Mella, 
    voltarmo-nos para um Ernesto Che Guevara, votarmo-nos para um Fidel 
    Castro. Porque nada é estático. A América latina e o Terceiro Mundo 
    tem sua realidade, suas peculiaridades. Agora não há porque esquecer 
    essa base marxista-leninista. Eu creio que é a essência de uma sociedade 
    melhor, de uma sociedade mais pura que ele propunha, para a qual 
    fizeram toda uma ordem de engenharia social, engenharia política, que 
    teve muita vigência, vigência essa que nós incorporamos em nossa base, 
    em nossa realidade. Eu creio que nós - quando digo nós estou me 
    referindo a Cuba - não nos esquecemos em nenhum momento dessa 
    base. Essa sociedade é a melhor que acreditamos, essa sociedade 
    marxista-leninista; porém nela incorporamos a nossa realidade. Eu lhes 
    diria, pode ser possível falar, por exemplo, no caso de Honduras, um país 
    totalmente agrário, pode-se falar de uma revolução proletária dirigida 
    pelos operários? Isso não é de acordo com sua realidade pois é um país 
    camponês, que classe trabalhadora vai dirigir Honduras? O 
    marxismo-leninismo tem que estar adaptado à realidade desta região, à 
    realidade social, à realidade política, à realidade econômica dessa região. 
    Esse tem sido o grande problema da esquerda - essa cópia de modelo, 
    que pode ir do stalinismo, passando pelo trotskismo, passando por todos 
    os regimes, por haver copiado sem buscar o referente histórico. E outro 
    grande problema da esquerda latino-americana que eu vou considerar 
    para completar minha idéia é o problema da unidade. Sem unidade, não 
    há processo revolucionário possível. E isto é um exemplo que nós 
    vivemos. Para que pudesse triunfar a revolução em Cuba teve que haver 
    um processo de unidade. Um processo de unidade entre os distintos 
    movimentos revolucionários que haviam em Cuba. Haviam três 
    fundamentais - haviam outros mais pequenos, mas havia três fundamentais 
    e teve que ser considerada a liderança de um homem, para que se 
    unissem esses movimentos. E são precisamente os movimentos que 
    chegam ao poder, não é o partido comunista, não é partido socialista 
    popular, é o movimento revolucionário em sua unidade. Se não há 
    unidade e se você não sacrifica, ao menos um pouco, seus interesses em 
    vista dessa unidade, não se faz o trabalho. 


    QUESTÃO: Há um índice de desemprego em Cuba? 

    JIMENEZ: Vamos ver o que se entende por desemprego, pois este é um 
    grande problema. Olhe, em Cuba, no ano de 1990 não existia a mais 
    mínima sombra de desemprego. Porém chegou a crise econômica e 
    fecharam as fábricas. Fecharam por falta de combustível, por falta de 
    matéria-prima. O que ocorreu? Muitos destes trabalhadores ficaram sem 
    emprego porque as fábricas se fecharam. Agora, aqui está o problema, o 
    que se entende por desemprego? Quando uma fábrica fechou em Cuba 
    porque não tinha matéria-prima, porque não tinha combustível, o 
    trabalhador foi para sua casa. Sentou-se em sua casa porque não tinha 
    trabalho. E assim sentado em casa, recebia 60% do salário sem fazer 
    nada. Porque se lhe passava 60% do salário? Por uma razão simples. 
    Nós não podíamos permitir que um pai de família que ficara sem trabalho, 
    sem o mínimo de recursos e seus filhos passassem fome. Nós não 
    poderíamos permitir, porque a revolução tem que ver, antes de tudo, o 
    homem. Portanto preferiu-se carregar o custo social dessa situação e não 
    repassá-la ao infeliz homem, que além do mais não tinha culpa que sua 
    fábrica tivesse sido fechada. Se você entende como desemprego aquele 
    indivíduo que passou a sua casa e que recebe 60% do seu salário, nesse 
    momento de maior crise há 250.000 desempregados. 250.000 
    trabalhadores que se foram para sua casa para ganhar 60%, na mesma 
    medida em que reabrindo as fábricas foram chamados novamente e 
    reincorporados ao processo produtivo. Nessa fábrica ou em outro lugar. 
    Porém se deu trabalho a essa gente novamente, para não ter que 
    passar-lhes 60% sem fazer nada. Nestas condições, tem atualmente em 
    Cuba tem 10.000 desempregados. 10.000 mil pessoas que estão em sua 
    casa, recebendo todavia 60%, porque não se encontrou a possibilidade 
    de lhe dar um novo emprego, porém quando se encontra deixará de ser 
    um desempregado. Isso é, em essência que nós entendemos por 
    desemprego. Inversamente, nós temos um grande problema, nos falta 
    mão-de-obra. Pode entender-se isso? Pode entender-se. Cuba é um país 
    que tem 74% de sua população vivendo em cidade, e 26% vivendo em 
    zonas rurais. Porque? Porque com o triunfo da revolução os filhos dos 
    camponeses tiveram oportunidade de estudar, fazer cursos técnicos 
    profissionais e não quiseram voltar ao campo, é lógico. E portanto, se 
    esses 26% de pessoas no campo, da população rural - e existe nesses 
    26%, crianças, anciãos, existem mulheres e homens que trabalham na 
    burocracia (em todos os países existe burocracia) - você vai se dar conta 
    de que efetivamente os que trabalham na terra vem a ser um 7 ou 8% da 
    população. Para nós falta mão-de-obra no campo e ninguém quer 
    trabalhar no campo. Se os 10.000 quisessem trabalhar, poderiam 
    trabalhar no campo, porém não querem trabalhar no campo. Nós temos 
    um grande problema, inclusive neste momento nós estamos dando a terra 
    em qualidade de usofruto a todos que queiram ir trabalhar no campo. 
    Damos a estes, inclusive, a possibilidade de obter crédito para que 
    cultivem a terra. Oportunidade de construir sua casinha no campo para ir 
    ao trabalho. Mas as pessoas não querem terra, as pessoas preferem oito 
    horas de trabalho numa fábrica ou oito horas de trabalho em outro 
    recinto. Temos, paralelamente, escassez de mão-de-obra. Escassez da 
    mão-de-obra diante da crise econômica que nós solucionaríamos muito 
    facilmente. Poderíamos solucionar através do incentivo, através da 
    mecanização agrícola. Em Cuba, digamos, a safra açucareira - que é o 
    principal produto de exportação de Cuba - estava mecanizada em 
    aproximadamente 72%; mecanizado em geral, desde o corte, a colheita, 
    tudo. Em outros setores da agricultura, a colheita de mamão e outras 
    também há uma ampla mecanização. Uma máquina trabalha por 800 
    trabalhadores. Não havia problema. Não havia camponeses, porém havia 
    os operadores que manuseavam a máquina e assim era suprida a 
    necessidade de trabalhadores. Além disso, não semeávamos frutos que 
    fossem muito trabalhosos. Não semeávamos frutos que não se podiam 
    mecanizar. Porque sabíamos que não teríamos mão-de-obra. Preferíamos 
    importar do que plantá-los. Depois da crise econômica começou a faltar a 
    peça de reposição, começou a faltar o combustível, começou a faltar o 
    herbicida, começou a faltar o fertilizante e então tivemos que nos voltar 
    mais à mão-de-obra do que à mecanização, porque não tínhamos mais 
    recurso para mantê-la. Com isso tornou-se mais importante que haja 
    maior mão-de-obra no campo. Dito em outras palavras, um campesino 
    brasileiro seria feliz em Cuba, porque imediatamente lhes daríamos um 
    pedaço de terra, que para nós seria um alívio, porque o homem 
    começaria a produzir. Como se vê esse é um grande problema em Cuba, 
    porque ninguém quer trabalhar na terra. 

    QUESTÃO: A minha pergunta é a seguinte: nós sabemos que a gente 
    ainda está num país onde muito se disse que "os comunistas comem 
    criancinhas e tomam a mulher dos outros". Eu queria saber o seguinte, 
    visto que a imprensa divulgou a algum tempo que o povo cubano estava 
    saindo de seu país. Porque o parlamento, sabendo que a situação 
    daquele povo está difícil, não deixou as pessoas saírem por livre e 
    espontânea vontade? 

    JIMENEZ: A emigração tem sido um fenômeno muito manipulado pela 
    imprensa. Muito manipulado pelo seguinte. A emigração de Cuba para os 
    EUA tem existido historicamente. Tem existido desde o século passado. 
    José Marti, que lutou pela independência de Cuba foi emigrado para os 
    EUA, e ali nos EUA se juntou entre os milhares de cubanos que viviam 
    nos EUA levando-os para a guerra contra a Espanha. No século passado 
    já viviam milhares de cubanos nos EUA, e no nosso século, a emigração 
    continua para os EUA. Nos EUA já viviam dezenas de milhares de 
    cubanos; e quando chegou a revolução, todas as pessoas comprometidas 
    com o regime de Batista, com a ditadura, também emigraram. Todos o 
    que puderam se foram. E toda a burguesia cubana foi para os EUA e se 
    incrementou a emigração, chegando a ser centenas de milhares os que 
    viviam nos EUA; além disso, essa burguesia levou a metade dos 
    médicos de Cuba. Cuba tinha 6.000 médicos e se foram 3.000. Essa 
    burguesia levou a imensa maioria dos técnicos de Cuba; e chegaram a ser 
    centenas de milhares os cubanos que viviam nos EUA. E é aqui que se 
    começa a complicar o problema. Porque começa a complicar-se? 
    Primeiro, em razão do bloqueio norte-americano a Cuba. Mediante esse 
    bloqueio nenhum cidadão que vivera nos EUA podia visitar Cuba, e 
    nenhum cidadão cubano que tivesse família nos EUA ou que quisesse 
    emigrar para trabalhar nos EUA poderia ir-se para os EUA. E se um 
    norte-americano viesse a Cuba, poderia ser punido com 10 mil dólares ou 
    três meses de prisão. Se um cubano pedia visto para ingressar legalmente 
    nos EUA não se lhes dava permissão para a entrada nos EUA. Se tivesse 
    uma mãe, enferma, morrendo nos EUA, não podia vê-la. Se morria 
    alguém não poderia visitar. Não podia visitar a seu irmão e muito menos 
    trabalhar nos EUA, porque eles não deixavam ele entrar. Paralelamente a 
    essa situação dezenas de emissoras de rádio norte-americana transmitiam 
    para Cuba, incitando as pessoas para que emigrassem ilegalmente, a que 
    "fugissem do comunismo" - se dizia assim, "fugir do comunismo". O que 
    ocorre? Muitas pessoas optavam por sair ilegalmente do país, em um 
    barco, em uma lancha, para se encontrar com sua família - família que 
    fazia dezenas, dez, vinte anos que não via, seu pai, mãe, irmãos. Ou para 
    ir trabalhar nos EUA - e isto temos que reconhecer. Os EUA é o país 
    que tem o poderio econômico mais alto do mundo e há quem quer ir para 
    lá para viver melhor, porque Cuba não oferece riquezas. Cuba oferece 
    igualdade social, não oferece um carro último modelo, não oferece 
    "residências", oferece apartamentos. E há quem queira ter "residências", 
    há quem queira ter "automóveis do último modelo", e isto é humano. 
    Voltando ao tema: nos EUA vive 25 milhões de latino-americanos. 
    Desses 25 milhões de latino-americanos menos de um milhão são 
    cubanos. Ninguém, nas propagandas norte-americanas, fala dos 24 
    milhões de latino-americanos - são mexicanos, são colombianos, são 
    dominicanos, são porto-riquenhos, desses ninguém fala. A grande 
    imprensa norte-americana fala do "um milhão de cubanos" porque é 
    desses que lhe convém falar. Trata-se de manipulação da informação. 
    Eles diriam que um mexicano cruza as fronteiras dos EUA fugindo do 
    comunismo? Não. O México não é comunista. Um colombiano se vai 
    para os EUA fugindo do comunismo, não, na Colômbia não tem 
    comunismo. Porque se vai um mexicano ou um colombiano problema é 
    econômico, é basicamente econômico, uma emigração econômica. A 
    emigração em Cuba é o mesmo. É uma emigração de tipo econômica e 
    de tipo humana. De tipo econômica porque há pessoas que querem viver 
    melhor, e de tipo humana porque há pessoas querendo encontrar seus 
    familiares. Quando um mexicano, ou outro latino-americano qualquer 
    tenta entrar ilegalmente nos EUA, ele é detido. Nos EUA os colocam 
    num avião e os devolvem ao seu país. Se um cubano sai ilegalmente de 
    Cuba e chega a Flórida, esse cubano é recebido com um microfone para 
    que declare que está fugindo do comunismo. Para este cubano se lhe dá 
    trabalho. Para ele se dá residência. É um herói. O mexicano não. O 
    mexicano leva pau, mas o cubano é um herói. A grande imprensa o 
    converte em um herói. Outra manipulação a mais. Agora bem, em agosto 
    de 1994, Cuba se cansou desta situação. Nós decidimos tomar uma 
    determinação e assim fizemos: levantamos a fronteira. Dirigimono-nos aos 
    EUA através de nota diplomática publicada em todos os periódicos, que 
    Cuba se negava a seguir cuidando da fronteira dos EUA e que, a partir 
    deste momento, todos os que emigravam de forma considerada ilegal 
    para os EUA seria considerada legal para nós. Portanto todo cubano que 
    quisesse ir encontrar seus familiares ou trabalhar nos EUA podia pegar 
    um barquinho em Cuba e ir-se. A polícia cubana começou a ajudar a 
    todos o que queriam ir com seu barco até a costa e que entravam no mar 
    e cuidavam até doze milhas para que não se perdessem no mar. Quando 
    isto ocorreu, saíram de Cuba 32 mil cubanos. Trinta e duas mil pessoas 
    pegaram um barco e se foram: queriam emigrar e os EUA não lhes davam 
    visto, não deixavam eles entrarem legalmente em seu território. Quando 
    viram trinta e duas mil pessoas em suas mãos se horrorizaram, e já não 
    queriam tantos lutadores contra o comunismo nos EUA. Se horrorizaram. 
    E então aconteceu com os lutadores contra o comunismo que foram 
    presos e os mandaram presos para a base de Guantânamo. Que foi que 
    se passou? Sucedeu o que nós queríamos que sucedesse. Obrigamos, 
    nesta forma de pressão, aos EUA a negociar conosco um tratado 
    migratório e teve-se que firmar pela primeira vez um tratado migratório. 
    Um tratado migratório pelo qual os EUA se comprometem, anualmente, a 
    dar 20.000 vistos aos cubanos para que possam entrar em território 
    norte-americano, ver seus familiares, poder trabalhar se o quiserem; 
    podem trabalhar se quiserem. Nós jamais pusemos restrições para que as 
    pessoas emigrassem, a restrição quem pôs foi o bloqueio, mas eles 
    puseram a responsabilidade sobre nós - mais uma manipulação. Com isto 
    os EUA tiveram que aceitar 20.000 vistos legais para os cubanos; tiveram 
    que aceitar que todas as pessoas que saiam ilegalmente de Cuba em uma 
    lancha, em uma balsa, sejam devolvidas a Cuba - como se faz com os 
    outros países - e têm cumprido esse acordo até o presente momento. 
    Quando alguém sai ilegalmente de Cuba eles o acolhem e os devolvem. 
    A pessoa que sai de Cuba não foge do comunismo, porque se fosse 
    assim, eles que são tão bons, não nos trariam de volta essas pessoas 
    como estão fazendo. Em Cuba não se persegue ninguém, porque os EUA 
    nos devolvem as pessoas e nós simplesmente as colocamos para trabalhar 
    no mesmo lugar onde estavam trabalhando. O problema não é que fujam; 
    o problema é de natureza econômica ou familiar. É isto em essência o 
    problema da emigração. Um fenômeno muito manipulado pela imprensa 
    internacional que tem traços de realidade, mas que não se distancia do 
    resto da realidade latino-americana. 


    QUESTÃO: Como é a participação das mulheres nesses espaços de 
    poder? 

    JIMENEZ: Em Cuba, a força de trabalho feminina é de 42,3%, quase 
    50% - quase igual aos homens; 65% de todos os técnicos que temos em 
    Cuba são mulheres; 43% de todos os cientistas que temos em Cuba são 
    mulheres; 70% de todos os técnicos que trabalham no setor da educação 
    são mulheres; 80% de todos os técnicos da saúde são mulheres; 29% de 
    todos os dirigentes que temos nos país são mulheres; 53,57% dos 
    dirigentes dos setores sindicais são mulheres e, dessas dirigentes sindicais 
    26% são dirigentes nacionais. Creio que esses dados dão a medida da 
    importância que tem as mulheres em Cuba em todos os âmbitos da 
    sociedade, do ponto de vista laboral, do ponto de vista técnico, do ponto 
    de vista profissional. Tanta importância têm, que isto nos cria problemas, 
    tremendos problemas. Vocês sabem por quê ? Porque temos um 
    problema demográfico em Cuba muito sério. Digamos, mais de 50% da 
    população cubana tem menos de 30 anos, e 65% da população cubana 
    tem menos que 40 anos - quer dizer, em idade reprodutiva, em que a 
    mulher está numa idade reprodutiva. A mulher cubana já não tem como 
    média 2 filhos, têm como média um filho. Inclusive estatisticamente em 
    Cuba, em média, cada mãe não está deixando uma mulher para 
    substituí-la. Em conseqüência, nossa população envelhece e diminui. 
    Envelhece porque todos os casais que são jovens hoje e não deixam dois 
    filhos, vão fazendo com que diminua a população em Cuba. Além disso 
    essas pessoas vão, com os passar dos anos, se convertendo-se em 
    anciãos e, no futuro, cada médico da família terá que ser um médico de 
    velhos para atender a muitos anciãos. Isto, no futuro, pode nos trazer 
    mais falta de mão-de-obra, porque vai diminuir nossa população. A 
    mulher cubana, precisamente por ter uma importância econômica, por ter 
    uma importância científica, tem deixado de se ver a si mesma como uma 
    mera reprodutora, tem deixado de ser um objeto - a mulher que vem ao 
    mundo para cozinhar, para lavar, para parir. Já não se vê assim. Se vê 
    como uma cientista, se vê como uma dirigente e, portanto, prefere ter 
    apenas um filho, e não dois, nem três, porque isso agravaria sua posição 
    profissional. Uma cientista que está fazendo experimentos, não consegue 
    deter seus experimentos durante o tempo necessário para ter um filho, e 
    por isso decide ter apenas um filho somente. E a partir desse filho, dedica 
    sua vida à ciência e ao único filho que tem. Esse é um grande problema 
    demográfico que nós já temos hoje e que temos que enfrentar. Além 
    disso, a mulher estudou e tem ao seu alcance a possibilidade de ser ela 
    quem decide de que tamanho vai ser sua família, quantos vão ser os 
    integrantes de sua família... Imaginem vocês... Eu tenho amigos que 
    tiveram que abordar a sua esposa e dizer-lhe: "se você não tiver mais um 
    filho, eu me divorcio de você e vou ter um filho com outra companheira"; 
    quando antes era totalmente o contrário, a mulher sempre estava solícita a 
    ter mais de um filho com seu companheiro.