- Prof. Eddy Jimenez(É escritor e jornalista cubano e também professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Havana)
Na manhã de hoje, nós conversávamos sobre o tema da educação. Vou fazer uma pequena referência a isto. Ao nosso juízo, não pode existir democracia se não existir educação. Não pode existir democracia sem educação por uma razão muito simples: pode haver democracia com um povo de analfabetos? Eu estou quase convencido de que não. Pode haver democracia com um povo inculto, eu creio que posso assegurar que seja impossível. Pode haver democracia se não há um mínimo de justiça social? Atrevo-me a afirmar que não. Não se pode fazer democracia num lugar onde as pessoas não saibam ler e escrever, onde as pessoas, por carecerem de recursos, vendam seus votos. Portanto, há de se partir de um preceito martiniano (de José Marti): ser culto para ser livre. É impossível a liberdade se não existir cultura. Portanto este foi o preceito que precisamente guiou a revolução cubana em seus primeiros anos: educar o homem para ser mais livre, para ser mais pleno em todos os âmbitos da vida social, econômica e democrática. Sobre o tema da democracia em Cuba, e sobre o tema específico das eleições em Cuba, há por parte dos inimigos, por parte dos Estados Unidos, por parte das grandes agências de notícias do mundo, grandes"mentiras". Em primeiro lugar se afirma que em Cuba não há democracia, há quem, inclusive, me disse que em Cuba não existem eleições. Sim, é bom fazer uma análise sobre como tem lugar as eleições em Cuba e como se realiza efetivamente a democracia em Cuba.Quero dizer que não penso que tudo em meu país seja perfeito. Nós temos muito por andar, temos muito por aperfeiçoar. Porém creio, e faço esta profissão de fé aqui, que somos muito mais perfeitos do que muitas democracias que nos dizem - ou que dizem ao mundo - que não somosdemocráticos.Como se realizam as eleições em Cuba? Em primeiro lugar está proibido terminantemente em Cuba que um partido, qualquer partido, o partido comunista, apresente candidatos para as eleições. O partido comunista cubano não apresenta candidatos para as eleições. Como se elegem os candidatos às eleições? Eles se elegem desde a base. Cada cidade se divide em circunscrições eleitorais de acordo à quantidade de habitantes de uma zona. Nesta zona, em específico, o povo se reúne em Assembléia e elege entre dois a oito candidatos - tanto a nível de município, o que vocês chamam de vereadores, quanto a nível de província, o que vocês chamam de estado, quanto a nível de Assembléia Nacional, que seria o parlamento. Esses candidatos, ou esses postulantes, em número de dois a oito, passam ao período eleitoral. Passam às eleições onde têm de alcançar 50% mais um dos votos, para poder galgar cada um dos níveis, município, província, Assembléia Nacional. Nestas assembléias do povo, onde se elegem os pré-candidatos, qualquer pessoa de qualquer credo político, de qualquer religião pode propor qualquer um, basta apenas que a pessoa aceite ser candidato. Basta que ela aceite submeter-se às eleições. Eleições que além disso, serão por voto livre (o voto não é obrigatório), secreto e direto.Quando se procede o ato eleitoral como tal, não é um grupo de pessoas adultas que guarda as urnas eleitorais. Por prática, em Cuba, as urnas eleitorais enquanto se procede a votação, são guardadas pelas crianças - as crianças das escolas. Elas ficam observando até a hora de contar os votos.Nesta votação, pode se dar o caso que, digamos, entre cinco, seis, sete candidatos, nenhum deles alcance 50% mais um dos votos. Se procede então um segundo turno entre os dois aspirantes que alcançaram maior número de votos, determinado-se quem tem 50% mais um. Isto, em sentido geral, na base, é a essência das eleições cubanas.Primeiro: todo aspirante em qualquer nível, municipal, provincial (1) ou nacional, tem de ser, sem exceção, apresentados desde a base, e competir com todos os candidatos que sejam propostos nesta zona.Segundo: todo candidato que saia eleito em qualquer nível, participa das decisões do nível que lhe corresponde, seja do município, do estado, da Assembléia Nacional. Quando se chega, digamos, a Assembléia Nacional deverá ter passado por este filtro das eleições onde deverá ter alcançado 50% mais um; qualquer candidato, inclusive Fidel Castro, sem exceção, tem que ser proposto pela base, e competir, na base, com os outros candidatos que foram propostos, e alcançar 50% mais um, sem exceção.Nosso regime não é presidencialista. Nosso regime é parlamentarista. Então, a Assembléia Nacional do poder popular - entenda-se, o parlamento cubano - é o responsável máximo pelo governo do país. Todas as leis devem ser apresentadas a este parlamento para a sua aprovação, sem exceção. Além disso, esse parlamento, eleito desta forma, é quem elege por sua vez o Conselho do Estado. O que é o conselho do Estado? O Conselho do Estado é a Presidência do país e as Vice-Presidências que, também, têm que ser eleitas por este parlamentoda mesma forma, 50% mais um dos votos, senão não pode ser nempresidente, nem vice-presidente do país.Por ser Cuba um regime parlamentar e não presidencialista, o presidente de Cuba tem menos faculdades que qualquer outro presidente, de qualquer outro país que tenha um regime presidencialista.Vou lhes dar um exemplo. Em primeiro lugar, imaginemos Fidel Castro, presidente do Conselho do Estado de Cuba. Não pode estabelecer nenhuma lei por decreto se não tem 50% mais um da aprovação. Vou lhes dar outro exemplo: o presidente dos EUA, Bill Clinton, pode por decreto assinar uma lei, e depois consultar o parlamento. Pode inclusive proceder a uma agressão militar a outro país e depois consultar o parlamento. A constituição lhe dá essa faculdade. Em Cuba, não. Em Cuba o presidente não tem essa faculdade. Teria que ser aprovado com 50% mais um do Conselho do Estado. Mesmo no caso de uma emergência, se for uma lei, deve ser aprovada pelo parlamento. Um presidente, digamos, dos EUA - Ronald Reagan, George Busch, digamos que seja Bill Clinton - chega ao poder às vezes com 35% dos votos de seu povo - uma votação bastante indireta, se consideramos os que se abstém, porque geralmente a abstenção nos EUA é de 40%. E considerando-se, além disso, os que votam no Partido Republicano, será com 35% dos votos que um presidente governa os EUA. Em Cuba isto jamais pode suceder. Jamais! O presidente primeiro precisa ser eleito para o parlamento, devendo ser eleito como deputado - alcançando os 50% mais um, e não apenas isso, 50% mais um de votação livre, secreta e direta do povo. Porém não apenas isso, há mais! Deve ser eleito por esse parlamento com 50% mais um dos votos, senão não chega à presidência. Que diferença! Ela é enorme, entre esse regime parlamentarista e o regime presidencialista que se diz o mais democrático do mundo.Além disso, consideremos os setores da vida do país que estão representados em nosso parlamento, que estão representados em nossa Assembléia Nacional, que estão representados em nossa assembléia municipal. Para começar, existe uma representação de todos os setores em cada um desses níveis da vida nacional. Como não há um partido que postule, é o povo que postula, simplesmente o povo solicita, pede a alguém que seja seu representante. Esse alguém pode ter qualquer tendência ideológica. Temos em todo o parlamento cubano a representação de todos os setores da vida do país. Vou lhes dar um exemplo. Há quem diz: não se trata de um regime comunista. Ao nosso parlamento tem sido eleitos, desde a base, escritores de filiação católica-apostólica-romana, famosos escritores cubanos que disputaram a Assembléia Nacional e foram eleitos pela base do povo. Existe também parlamentares que são de religião protestante, existe um reverendo, o reverendo Raul Soarez, protestante, que disputou a Assembléia Nacional da tribuna popular - eleito desde a base. Existem artistas, desportistas, médicos, trabalhadores - uma infinidade de trabalhadores. Todos os setores do país estão representados neste parlamento. E eu me pergunto, não é isso muito mais democrático do que um partido postular a um candidato, que afinal de contas não conhece, não conhece a sua vida, não conhece sua obra, o serviço que faz - e que simplesmente o apresenta como candidato de um partido, e que o povo tenha queescolher entre o que um partido e o que outro partido lhe apresentam, sem ter a oportunidade de que ele mesmo (o povo) selecione quem o represente ?Em Cuba, não existe campanha política. Está proibido fazer campanha política. Vocês sabem qual é a única campanha política que se aceita em Cuba? Eu vou lhes dizer. Uma vez que os vizinhos se reúnem na Assembléia nas distintas zonas, nos distintos lugares, nas distintas circunscrições, cada um, tendo escolhido o seu candidato, apresenta uma biografia de sua vida, desde quando era pequeno até o momento da eleição: quem é, onde trabalha, o que tem feito pelo país, se foi julgado alguma vez, se não tem delito, onde milita - se é católico, se é evangélico, se é comunista. Como é sua vida, o que tem feito pelo país. É considerando-se essa biografia que se faz daquela pessoa que foi proposta, que o povo escolhe quem melhor vai lhe representar. Nenhum centavo, nenhum peso é dedicado às eleições em Cuba. As eleições não são um carnaval, mas um ato democrático muito sério, em que o cidadão vai escolher quem vai lhe representar, digamos, a nível de município, onde as eleições se realizam a cada dois anos, ou a nível nacional, para a Assembléia Nacional, onde as eleições se realizam a cada cinco anos.Porém, há algo mais na democracia cubana. Uma vez eleita a pessoa, emqualquer nível, municipal, provincial ou à Assembléia Nacional, qualquerdestes deputados que foi eleito pelo povo pode simplesmente serdestituído pelo mesmo povo que o aprovou. Imediatamente se concluaum ato de corrupção, imediatamente o mesmo povo, a mesma base que opropôs, pode convocar uma outra reunião e retirar seu apoio, isto emqualquer nível. Se não fosse assim, poderia ocorrer que um fenômeno decorrupção fique simplesmente esquecido, que passe o mandato, e essehomem siga desfrutando de todas as suas prerrogativas. Se se descobreum ato de corrupção, se se descobre um ato que viole as leis do país,este processo de destituição pode dar-se desde a base pela proposiçãodo povo, ou pode dar-se desde a proposição dos mais altos níveis daAssembléia Nacional, e da Assembléia Provincial. Imediatamente aosurgimento da proposta se discute com o povo, e esse homem édestituído, porque não pode existir um corrupto em uma AssembléiaNacional, não pode existir um corrupto na Assembléia Provincial, nãopode existir um corrupto a nível de município.Parece-me que é muito mais democrático, porque ademais osparlamentares não gozam, em nenhum momento, de privilégios, não têmimunidade. E vocês sabem quanto ganha um parlamentar em Cuba? Quedinheiro recebe um parlamentar em Cuba? Recebe o mesmo salário quetinha na hora que foi eleito. Se esse homem que foi eleito pelo povo pararepresentá-lo é um médico que ganhava quatrocentos pesos na hora desua eleição, segue ganhando como parlamentar os mesmos 400 pesosque ganhava naquele momento. Se esse homem é um simples trabalhadore ganhava 200 pesos - salário médio de Cuba -, não importa que sejadeputado à Assembléia Nacional, seu salário segue sendo 200 pesos, porque nós não temos políticos profissionais. Não aceitamos ter políticosprofissionais. Temos representantes do povo, e como tal têm que secomportar.Eu não quero fazer apologias. Penso e reitero que temos muito aaperfeiçoar, mas trata-se de um experimento novo no mundo. Por muitasrazões, em primeiro lugar porque não nos parecemos ao sistema quehavia a Europa do Leste. Na Europa do Leste, era o partido quempropunha um dirigente, um deputado à Assembléia Nacional, umdeputado à Assembléia Municipal.Eles também propunham um candidatoúnico, o que poderia ser considerado como a corrida de um só cavalo.Em Cuba isto jamais ocorre. Existe uma grande diferença. Nós estamosensaiando um novo modelo de democracia, e portanto, todo modelonovo tem que ser melhorado, tem que ser corrigido, tem que melhorar.Agora, creio honestamente, que estamos muito acima da chamadademocracia ocidental, que hoje se trata de impor a todos os povos.Porém, há algo mais além disso, e isso é algo de muito importante: o quese entende por democracia? O que se entende por participaçãodemocrática? Pode um norte-americano - vou seguir colocando comoexemplo os EUA - que trata sempre de sustentar para o mundo que nós(os cubanos) não temos democracia... Pode um norte-americano decidir,um norte-americano simples, que leis se votam em seu país? Pode? Temmecanismos? Que mecanismos têm? Nenhum? Pensemos: se permitemessa democracia, se se concretiza em um voto, a pessoa votou, e daí jánão exerce nenhum poder. O partido do qual saiu eleito este indivíduo,esse político é quem decide que política seguir. Mas, não é apenas isto,na realidade este não é um partido e sim são as grandes corporações e osgrandes interesses econômicos que determinam que leis irão votar. Nemsequer é um partido. Em Cuba, isto não se dá.Em Cuba isso não se dá por várias razões. Em primeiro lugar porquetoda pessoa que tenha sido eleita desde a base para um cargo de direção,tem a obrigação de reunir-se semestralmente com os eleitores que oselegeram, com os eleitores que nele votaram, e explicar-lhes o que feznesses seis meses, o que tem sido sua política, como tem solucionado osproblemas que os eleitores haviam apresentados a ele. E tem que, ainda,semanalmente, destinar um dia - ou uma noite - para receber seuseleitores, possibilitando-se que seus eleitores venham a ele paraapresentar dúvidas, para apresentar queixas, para apresentar sugestões; edeve atendê-los e dar-lhes soluções sobre estes problemas que se lheapresentam. Isto, semanalmente. Qualquer cidadão tem o direito deencontrar-se com esse homem que elegeu, e de dar opiniões sobre ostemas mais diversos do país, que pode ser um problema enorme a nívelde nação até um problema mais simples da comunidade. E eu mepergunto, quando um senador sai eleito em qualquer país, EUA porexemplo, este senador semanalmente se senta em um escritório parareceber aqueles eleitores que votaram nele, para ver que problemas têm,que dúvidas, como solucionar seus assuntos? Não o fazem. Nenhum! Seacham grandes senhores. Eles se reúnem semestralmente em massivasAssembléias, com todos os seus eleitores, para dar conta do que temfeito? Não o fazem. Em Cuba se faz! E isso é democracia! Qualquer umpode levantar a mão e impugná-lo. Porém, ainda mais! Se alguémcomprovar que (o dirigente) tenha dado um mal passo, que tenhacometido erros etc., se alguém conseguir provar, e se nessa Assembléiaem que semestralmente se reúnem com ele, este povo determina que nãotem feito um bom trabalho, que o trabalho foi muito ruim, nesse momentoessa Assembléia pode pedir sua substituição e eleger outro em seu lugar.Isso é democracia. Uma democracia bem diferente daquela que oPrimeiro Mundo trata de incutir no Terceiro Mundo.Vamos, inclusive, mais além. Consideremos o âmbito da participaçãopopular nas decisões das leis. Em Cuba, para que uma lei seja aprovadapela Assembléia Nacional do Poder Popular, primeiro, nas leis deimportância - não vamos falar de desviar o trânsito para uma rua, ou deuma multa de trânsito a alguém que infringe uma lei do trânsito, que vaiaumentar a multa de 10 para 20 pesos, isso não, isso seria um absurdo - ,mas uma lei de importância nacional, todas, sem exceção, antes de seremaprovadas pela Assembléia Nacional, têm que ser discutidas pelo povo.Discutidas pelo povo nos centros de trabalho, discutidas pelo povo nosbairros das circunscrições, e daí, desse projeto de lei que se apresenta aopovo surgem mudanças, todos os tipos de modificações, leis que inclusivevariam em sua essência. E quando são recolhidos todos os critérios dapopulação e são tomados em conta, é que essas leis passam para aAssembléia Nacional para a sua aprovação. Passam pela AssembléiaNacional e depois de aprovada, inclusive, passam no Conselho doEstado para confirmá-las e colocá-las em vigor. Isto é participaçãopopular, isto é democracia! Mas o que se dá no parlamento americano?Discutem as leis a implementar no congresso de seu país? Quem tem (dopovo) essa oportunidade? E dizem que é a democracia mais perfeita queexiste no mundo.Porém, falemos também a nível de trabalhador, a nível de fábrica. São ostrabalhadores em Cuba quem discute os problemas de sua fábrica, deseu plano de produção: sobre o que fazer, sobre como melhorar. Aadministração tem que levar em conta os critérios de seus trabalhadores.É isto que chamamos em Cuba de Parlamentos dos Trabalhadores,deslocando-nos dos assuntos macropolíticos, neste outro nível, a nível defábrica, ocorre isso (os Parlamentos dos Trabalhadores): as decisõesclássicas de uma unidade trabalho quem as toma são os trabalhadores,eles respeitam sua direção, mas as soluções são dos trabalhadores.Eu não quero estender-me no tema, penso que vocês têm uma infinidadede perguntas. Somente sintetizei a matéria para garantir a participação devocês, para que tenham oportunidades de fazerem perguntas.DEBATEQUESTÃO: Você falou que uma zonal, um território, tem de 2 a 8candidatos, e é eleito quem tem 51% dos votos, então em cada região sóé possível eleger apenas uma pessoa?JIMENEZ: O número de representantes eleitos depende da quantidadede habitantes que reside nas zonas, uma vez que um município se dividepor zonas.QUESTÃO: Outra pergunta. É sobre a elaboração das políticas doEstado e não das leis necessariamente. Por exemplo, a política de saúde,de transporte... Existe alguma forma de participação popular nasdiscussões de como vai ser e como tem que ser?JIMENEZ: Nosso parlamento, como qualquer outro, se divide emcomissões. Como se faz isso? Na comissão de saúde, por exemplo,foram eleitos 5 ou 6 médicos - como é lógico os médicos formam essacomissão como uma parte da comissão parlamentária que atende aostemas da saúde, isso para começar. Na elaboração das leis para seremdiscutidas com o povo faz-se essa comissão especializada. Há algo mais,isto a nível macro, mas a nível do povo, em cada uma dessascircunscrições o povo decide também sua própria política de saúde. Querdizer, o delegado do poder popular, eleito nesta circunscrição, por essenúmero de habitantes, é encarregado de que os serviços de educação, desaúde, de alimentação, enfim todos os serviços para esta população,funcione nesse nível. Qualquer cidadão desta circunscrição tem o direito eo dever de propor qualquer idéia, qualquer sugestão, a nível demunicípio, e este parlamentar municipal tem que dar solução a esteproblema, seja de qualquer de nível, seja de um médico da família, sejade um policlínico, porque tem o dever de melhorar o nível de vida dopovo desta zona. Se o problema for de outro nível, do nível da Provínciaou do nível do Estado, a proposta sai da base, ou pode sair destacomissão de saúde da Assembléia. Há um duplo caminho: o caminho dasuperestrutura à base - através desta comissão -, e o caminho da base àsuperestrutura. As idéias podem surgir em ambos sentidos, porque háuma retroalimentação.QUESTÃO: Com relação ao tempo de mandato na esfera municipal,província e Assembléia, qual é o tempo do mandato? Já no processo deaprendizado, está embutida a política nas disciplinas escolares?JIMENEZ: Quanto à primeira pergunta, como já havia dito, as eleiçõesmunicipais em Cuba se efetuam a cada dois anos e as eleições para aAssembléia nacional se efetuam a cada cinco anos, para o parlamento. Asúltimas eleições municipais que se efetuaram em Cuba foi no ano passadoem 24 de fevereiro. As próximas eleições nacionais para o parlamentodeverão ser realizadas em 1998. Quanto à segunda pergunta, se oensinamento nas escolas sobre o sistema eleitoral cubano, sobre a políticae democracia, se ele é específico... A nível primário isso não se dá. Se dáa nível secundário como parte da formação histórico-social do aluno. Anível primário se dá uma aprendizagem na prática, pois eu reitero que sãoas crianças, em Cuba, que cuidam das urnas eleitorais, essas criançascuidam dos colégios eleitorais, essas crianças se imbricam na sociedadepor essa prática, não votam, mas participam. Estão se habituando aexercer na prática essa democracia, porém não há um conteúdoprogramático (2) específico a nível primário, cremos que isso não sejanecessário com as crianças. Talvez devesse haver... Eu sou um dos quetem acreditado que isso se faz por merecer num momento determinado,pelo menos na quinta ou sexta serie (3) . Penso que seria saudávelempreender esta tarefa no futuro por uma razão, porque agora temosmuito mais influencia externa do que tínhamos há 4 ou 5 anos atrás.Talvez seria bom educar já às crianças, de forma teórica, sobre este tema. Poderia pensar-se que é necessário. Não se politiza em excesso.QUESTÃO: Eu tenho duas questões. Uma delas é com relação àdestituição dos eleitos. Se na Assembléia semestral a comunidade decidiuque aquela pessoa que foi eleita deve ser destituída, como é que outrapessoa é eleita no lugar ? Ela vai cumprir um mandato que a anteriordeveria cumprir? A outra questão é sobre a faixa etária dos eleitores. Apartir de quantos anos se começa a votar em Cuba? Aqui no Brasil era18 anos e passou para 16...JIMENEZ: Primeiro: 16 anos em Cuba. Segundo. Quando um delegadodo poder popular é destituído numa reunião de base, há que seconvocar uma nova eleição e se propor novos nomes, novos candidatos,e se promoverá novamente a eleição pelo voto livre, secreto e direto.Quanto ao mandato, o novo eleito apenas complementa o mandato dooutro que foi destituído.QUESTÃO: Quando você fala em democracia, logo a gente associa noBrasil, a idéia de três poderes livres, independentes e autônomos. Eugostaria que o senhor colocasse alguma coisa com relação ao poderjudiciário do Estado Cubano, as formas de constituição das cortes dejustiça e os níveis de jurisdição. E se for possível alguma coisa, umresumo rápido da tramitação de um processo comum criminal.JIMENEZ: Em Cuba existe o que nós chamamos de juizes leigos. O juizleigo não é um jurista, é um homem eleito pelo povo, um homem comcapacidade, com nível, e o povo se reúne e o elege como seurepresentante. Esse juiz leigo participa em todos os juízos junto aosjuristas profissionais. Porque se faz isso? Isto se faz, em primeiro lugar,para não imprimir nenhum juízo, nenhum critério totalmente tecnocrata,nenhum conceito da jurisprudência, mecânico, sem ter a oportunidade dealguém do povo, com nível, que não tenha essa concepção totalmentejurista, seja capaz de opinar nesse tribunal; seja capaz de opinar sobreproblemas humanos e não somente sobre problemas legais.Quando alguém comete um delito em Cuba, ele é levado, como é lógico,a um juízo - um juízo a nível de município que pode impor-lhe sanções.Esse indivíduo pode apelar para uma instância de apelação a nível deprovíncia (o que vocês chamam de estado), e se alguém fala contra ele,ele tem uma terceira apelação que é a nível nacional - está é inapelável.Se tem três juízos de base, se tem três opções. Em todo caso, o acusadotem direito a nomear um advogado defensor, e se não nomear, põe-se umadvogado de ofício que tem que atender em juízo, como defensor doacusado, da mesma forma que tem que haver um fiscal, um acusador. Istoé em essência. Esse tema pode ser que seja o terceiro poder, que é opoder judicial , sem dúvida. Para nós não existe desta forma, havendouma maior participação popular e não somente uma coisa técnica no tratodas leis. Existe, digamos, a nível de fábricas, a nível de centros detrabalho, companheiros que também fazem juízo de tipo laboral, para osinfratores as leis trabalhistas. Se um trabalhador comete uma indisciplina,a administração não pode imediatamente impor-lhe uma sanção, nãopode despedi-lo da fábrica. Primeiro tem que reunir-se com essestrabalhadores que compõem o tribunal da fábrica e julgar essetrabalhador, e propor uma sanção. A administração pode dizer, bem você está suspenso do emprego e do salário durante seis meses, e chegar ao tribunal de trabalhadores e eles dizerem que a administração seequivocou, que não será seis meses; que esse homem cometeu um erromas a pena é de um mês. E a administração tem que obedecer, porque éassegurado que o trabalhador tenha que aceitá-lo.QUESTÃO: E estes profissionais são vitalícios?JIMENEZ: Não. Criar uma elite que vai ministrar uma justiça em nome dequem? Esse erro não se pode cometer jamais! Um juiz pode serdestituído simplesmente em 24 horas, ainda mais que você pode acudir àrepartição fiscal (4) , que é outro método que temos. Você pode acudir àrepartição fiscal para acusar inclusive ao juiz, é um direito que o cidadãotambém tem. Fala-se muito que há poucas liberdades pessoais em Cuba,e eu lhe digo, Cuba é um dos poucos países que podem dizer para omundo, com a consciência limpa, que nós não temos desaparecidos emCuba; nós não temos em Cuba presos torturados, nós não temos emCuba presos por delito de opinião; isso não existe em Cuba. Não estácontemplado em nossa constituição. Além disso, sobre a polícia... Todosos países do mundo tem um poder repressivo. Mas em Cuba não podemchegar na minha casa e entrar. Primeiro têm que vir com uma ordem darepartição fiscal para poderem entrar em minha casa; do contrário eu soumuito livre para dizer-lhes: não entrem. E não entram. Respeitam-se osdireitos dos cidadãos, inclusive esse direito de privacidade. Os órgãosrepressivos primeiro têm que se dirigir à lei para poder me deter e parapoder entrar em minha casa. É preciso ter uma ordem de detenção.QUESTÃO: A gente sabe que uma das coisas que os EUA, osamericanos, usam para defender a questão do bloqueio, um dosargumentos deles é que Fidel Castro é realmente um ditador em Cuba. Eutive oportunidade de ver lá em Cuba que todos os cubanos, uns chamamFidel de presidente, outros de nosso comandante. A minha pergunta é, seexiste o parlamento, como se dá a eleição do comandante, se ele tem umposto garantido, se ele é o chefe do exército cubano, ou se em 5 em 5anos ele também é submetido a essa eleição, a esse 50% mais um dosvotos pra se eleger? E junto com esse Conselho, eu gostaria de saber oseguinte: ele se submete ao Conselho, aí ele se elege, aí os ministros (doTrabalho, etc.) são indicados pôr ele, e se os ministros também sãoeleitos?JIMENEZ: Olhe. Fidel Castro e todos, sem exceção, tem quesubmeter-se ao voto da base. Tem que primeiro integrar-se à Assembléiapopular como parlamentar, portanto tem que ser proposto desde a base eeleito pela base com 50% mais um dos votos em uma circunscrição,senão não passa ao parlamento. Nas últimas eleições gerais para oParlamento, na zona em que foi proposto Fidel Castro como parlamentarà Assembléia nacional, na circunscrição em que foi proposto, Fidelalcançou 96,7% dos votos de sua circunscrição, de sua zona, paradeputado. Primeiro tem que passar por esse filtro, Fidel Castro e todos,sem exceção. Fidel Castro não tem nenhuma prerrogativa, não é eleitodiretamente pôr ninguém. Tem que passar pelo povo, nessa primeira fase.Isto para começar. Nisto eu sou completamente honesto. É muito difícilcompetir com Fidel Castro em uma base.A lei exige que sejam Propostos de 2 a 8. Imagine que eu sou de Birán, que é uma área que faz parte da província de Holguín, e me propõem à eleições e que Fidel também é proposto em Birán - que é sua região natal, por exemplo - e nisto não háproblema, porque Fidel Castro não pode ir sozinho para a eleição. Opovo tem a força de propor de 2 a 8. Fidel é de Birán, e eu estouconvencido que vou perder a eleição. Estou convencido, isto é real. Eestou convencido por uma razão lógica, Fidel é um líder, não apenas emBirán, Fidel é um líder nacional; as pessoas vão votar neste líder, porqueum líder não se fabrica, e eu não sou um líder. Mesmo assim ele tem quesubmeter-se a essa base. Porém, além disso, cada vez que o deputadotenha que submeter-se ao voto do parlamento para poder ser eleitopresidente, tem que ter 50% mais um dos votos, senão não é presidente.Não há nenhuma prerrogativa especial. Tem que ser eleito por esseparlamento. E quando chega ao Conselho do Estado, este parlamento éque propõe o Conselho do Estado e os Vice-Presidentes, que se reúneme determinam de todos os que foram eleitos quem é o Presidente, e temque ter 50% mais um deste Conselho do Estado para ser o Presidente.Mas eu reitero, é muito difícil competir com Fidel Castro, eu até diria queé impossível, sou totalmente honesto, porque ele é o líder de Cuba, e umlíder não se cria, um líder se nasce. Você não cria um líder por decreto.Se você tem apoio do povo ele vota em você, vai preferir votar em vocêdo que votar em outro.QUESTÃO: Na verdade eu quero fazer mais um comentário do que umaquestão. Eu acho que democracia em Cuba ela é inquestionável,diferentemente da democracia burguesa como a do Brasil, queinfelizmente existe no resto do mundo. Um exemplo disso é que nóstemos atualmente que engolir a reeleição do atual presidente daRepública, FHC, que representa o neoliberalismo no Brasil, querepresenta as forças mais reacionárias, retrógradas hoje de nosso país. Oque nós temos que fazer neste debate, acho que essa discussão é superinteressante inclusive para reafirmar a solidariedade dos trabalhadores, dalideranças sindicais, das lideranças partidárias comprometidas, com alibertação do nosso povo, nós temos na verdade que reafirmar o apoiosolidário a Cuba e, inclusive, acho que saudar mais uma vez a revoluçãode Cuba, que vem triunfando. O exemplo da participação popular, daqual nós falamos tanto aqui em participação popular... Lá em Cuba todoos trabalhadores, todo o povo, começa a discutir e elege pessoas a partirde seus locais, e chega à eleição de seu presidente - o referendo de96,7% a Fidel Castro é na verdade um exemplo claro do apoio popular edo reconhecimento de Cuba, da revolução. Acho que Fidel levanta umaquestão: existe o partido da revolução e o partido da contra revolução,acho que os contra-revolucionários ainda existem em grande quantidade,exemplo disso são o governo dos EUA e seu bloqueio. Creio que a gentetem que ficar do lado do partido da revolução.JIMENEZ: Há algo que me esqueci de responder sobre o governo deCuba, sobre os Ministros de Cuba. Os Ministros são nomeados peloConselho do Estado. Este é um aparato legislativo. Um ministro pode sersubstituído a qualquer momento pelo Conselho do Estado ou peloparlamento.QUESTÃO: Em alguns países os criminosos são punidos com a penamáxima que é a pena de morte. Eu queria saber, em Cuba, como é apena máxima pra delitos.JIMENEZ: Isto é importante. Em Cuba nós contemplamos a penamáxima pôr duas razões, na constituição. A contemplamos pelo que nóschamamos de crime horrendos. Um crime horrendo é aquele em que umindivíduo assassina uma anciã, assassina uma criança, violentando-a ematando-a; assassinar uma pessoa indefesa, isto pode ser contempladocomo um crime horrendo e pode ser causa de pena de morte. Essa é aprimeira causa para que se possa condenar à pena de morte uma pessoa.Essa pessoa que é condenada a morte, não se trata, para esclarecer, dealguém que assassina a outro em uma briga, ou que assassinou inclusivepara roubar. Não, isso não é um crime horrendo. Esse homem podepegar 20 anos de prisão, etc. O crime horrendo é aquele que emociona asociedade e que não se pode permitir, e quando ocorre em Cuba, o que émuito raro, mas quando ocorre se lhe reprime com força, porque nãopodemos estar educando nossa sociedade na violência. Assassinar umaanciã, violentar uma criança... - isto sim pode sofre a sanção de penamáxima. Quando essa pessoa é condenada à morte, por crime horrendo,pode apelar à máxima instância, ao tribunal supremo, o Tribunal Nacional.O acusado é julgado pela província e não pelo município. Então ele éjulgado pelo maior nível, o nacional. E se ainda assim é ratificada asentença de morte por esta instância suprema nacional, tem ainda que seraprovado pelo Conselho do Estado, pelo Presidente da República e osVice-Presidentes que têm que aprovar essa pena de morte com 50%mais um. Toda pena de morte tem que ser aprovada e tem que serfirmada pelo Presidente do país, que é a última instância que pode ditar aclemência.A segunda causa é mais relacionada com os militares e com os tribunaismilitares, que é o delito de traição à pátria. Entenda-se pôr traição àpátria o militar que vende informações ao inimigo, que forneceinformações. Que se tenha rendido ao inimigo para nós é uma traiçãocompleta; esse indivíduo pode ser julgado por uma corte militar esancionar a pena de morte. São os dois únicos casos que nossaconstituição aceita como pena de morte. São excepcionais, porémocorrem.QUESTÃO: Professor, como é que surgiu esta história do "Paredón"?JIMENEZ: Como surge o "paredón" em Cuba. Moça, nós chegamos aopoder em primeiro de janeiro de 1959, depois de lutar seis anos contraum ditador militar muito sanguinário em Cuba - Fulgêncio Baptista . Umditador que causou a morte de 20.000 cubanos. Desgraçadamente, tenhoque dizer assim, a maioria dos torturadores, dos assassinos do paísconseguiram fugir, conseguiram fugir para os EUA e foram muito bemacolhidos, chegaram com seus milhões, com aviões repletos de dinheiro,saquearam o Tesouro Nacional antes de irem. Porém houve quem nãoconseguiu ir. Estes foram julgados e condenado à morte. Todos ostorturadores, todos os assassinos, foram condenados à morte.Desgraçadamente a maioria dos torturadores e assassinos se foi, porquesenão teríamos fuzilados quinhentos mais, os que ficaram foram fuzilados.Os julgamentos mais importantes foram televisionados para o país, e osacusadores contra estes torturadores, contra esses criminosos, foi opróprio povo, os sobreviventes da tortura, os familiares dos mortos etudo isso televisionado para todo o país. Tiveram direito a um advogadodefensor, tiveram essa oportunidade de ter um advogado defensor, porémse foi duro, se foi bastante inflexível, o foi porque um país que lutoudurante seis anos e que teve 20.000 mortos não podia aceitar uma lei deperdão. Isso é hipocrisia! Isso é hipocrisia porque havia muitas criançasmortas! Isso é hipocrisia porque havia muitas mães chorando! O povocubano era o primeiro que não iria admitir. Haveria que se fazer justiça! Ehavia que fazer justiça para que jamais, para que nunca mais em Cubahouvesse ditadura. Para que aquele que pensasse em ser ditador outravez, soubesse que iria esperar o dia em que fosse derrubado. E daí surgiua história do "paredón". História do "paredón" que foi muito utilizadapelos Estados Unidos contra Cuba; história do "paredón" que se disseque foi uma violação dos direitos humanos, como se tirar as unhas ouarrancar os testículos não ferisse direitos humanos. O torturador, o quemoveu a tortura não é vítima dos direitos humanos? Havia de se fazerjustiça... Esse foi um dos primeiros enfrentamentos precisamente com osEUA, que nós estávamos fuzilando a todo este tipo de gente. Porém osEUA não tinha moral alguma para dizer-nos isso. Porque os EUA, esteveseis anos mantendo essa ditadura militar, dando-lhes armas, aviões,dando-lhes dinheiro para matar o povo. Desde a base na Bahia deGuantânamo, no território cubano, saiam as armas, saiam os aviões parabombardear a Sierra Maestra e os povoados cubanos. Com que moralvem nos julgar por violar os direitos humanos se eles é quem estavamviolando? Eles simplesmente estavam defendendo os seus instrumentosem Cuba, as suas pessoas em Cuba, os seus assassinos em Cuba. Nósnão estávamos dispostos a isto. Esta é a história do "paredón".QUESTÃO: Eu lembro que uma vez, ouvindo um discurso do Fidel naVoz de Cuba, talvez eu tenha entendido equivocadamente, Fidel dissenum dado momento para os americanos que se eles invadissem Cuba,que cada peito de cada cubano seria um canhão, e ao mesmo tempoafirmou que a doutrina seguida em Cuba é a doutrina políticamarxista-leninista. Se fosse possível o senhor fazer uma breve síntese doque seja o marxismo-leninismo sem deixar muito complexo, e se isso queo senhor falou das eleições tem base, completamente, na teoriamarxista-leninista.JIMENEZ: O marxismo-leninismo, tomando como base a democraciaem Cuba... Nós queremos dizer que a base da democracia cubana émarxista-leninista, e cremos que seja assim pelo seguinte. Já Marx,inclusive Lenin, fizeram um projeto social, foram engenheiros, forampensadores que trataram de ordenar a sociedade sobre uma base. Porém,nem Karl Marx nem Lenin determinaram o que fazer em cada casoparticular. Eles simplesmente apresentaram projetos programáticos -inclusive Lenin, porque Lenin chega ao poder. Ele consegue ser líder deuma revolução. Porém Lenin governou muito pouco na URSS. É pena,mas morre no princípio do processo revolucionário, que foi a grandedesgraça desse processo socialista. A partir deste momento começa-se atergiversar tudo. Nós cremos que partimos de uma base marxista-leninistaque precisamente trata ou considera (5) a igualdade. Afirma a igualdadeentre os homens. Considera um sistema democrático superior. O que sepassa é que nós não copiamos integralmente o que colocam Marx eLenin, por que nós temos nossa própria realidade. Nós não podemos nosdeter no século passado, na época de Marx. Não podemos nos deter noprincípio deste século nem, menos ainda, na realidade da Europa. OCardenal nos falou de um fenômeno interessante - me perdoem aqui seexiste muitas tendências políticas, eu não quero ofender a ninguém -, queo grande problema da esquerda, dos marxistas-leninistas é que elescopiaram muito. Copiaram muito de uma realidade que não é nossa. Nóstemos nos convertido, durante décadas, em eurocentristas. O centro denosso pensamento não está na América, não está em nossa realidadeobjetiva, tem estado na Europa. Se temos um pouco de memória, selemos um pouco, nos damos conta de que Karl Marx - com todo orespeito que merece Karl Marx, há que estudá-lo simplesmente porque éa base, e isso eu retomo, porém ele colocava, digamos, que Bolívar eraum caudilho - e isso não tem problema. Vocês sabem porque ele afirmavaisto, que Bolívar era um caudilho? Simplesmente porque Marx não eralatino-americano; era europeu e estava julgando a Bolívar a partir da óticada Europa e não através da ótica da realidade latino-americana. E daí aimportância de se voltar ao marxismo-leninismo, tomando-se como baseo marxismo-leninismo mas voltando-nos à nossa realidade. Voltarmo-nospara um Mariátegui, voltarmo-nos para um Julio Antonio Mella,voltarmo-nos para um Ernesto Che Guevara, votarmo-nos para um FidelCastro. Porque nada é estático. A América latina e o Terceiro Mundotem sua realidade, suas peculiaridades. Agora não há porque esqueceressa base marxista-leninista. Eu creio que é a essência de uma sociedademelhor, de uma sociedade mais pura que ele propunha, para a qualfizeram toda uma ordem de engenharia social, engenharia política, queteve muita vigência, vigência essa que nós incorporamos em nossa base,em nossa realidade. Eu creio que nós - quando digo nós estou mereferindo a Cuba - não nos esquecemos em nenhum momento dessabase. Essa sociedade é a melhor que acreditamos, essa sociedademarxista-leninista; porém nela incorporamos a nossa realidade. Eu lhesdiria, pode ser possível falar, por exemplo, no caso de Honduras, um paístotalmente agrário, pode-se falar de uma revolução proletária dirigidapelos operários? Isso não é de acordo com sua realidade pois é um paíscamponês, que classe trabalhadora vai dirigir Honduras? Omarxismo-leninismo tem que estar adaptado à realidade desta região, àrealidade social, à realidade política, à realidade econômica dessa região.Esse tem sido o grande problema da esquerda - essa cópia de modelo,que pode ir do stalinismo, passando pelo trotskismo, passando por todosos regimes, por haver copiado sem buscar o referente histórico. E outrogrande problema da esquerda latino-americana que eu vou considerarpara completar minha idéia é o problema da unidade. Sem unidade, nãohá processo revolucionário possível. E isto é um exemplo que nósvivemos. Para que pudesse triunfar a revolução em Cuba teve que haverum processo de unidade. Um processo de unidade entre os distintosmovimentos revolucionários que haviam em Cuba. Haviam trêsfundamentais - haviam outros mais pequenos, mas havia três fundamentaise teve que ser considerada a liderança de um homem, para que seunissem esses movimentos. E são precisamente os movimentos quechegam ao poder, não é o partido comunista, não é partido socialistapopular, é o movimento revolucionário em sua unidade. Se não háunidade e se você não sacrifica, ao menos um pouco, seus interesses emvista dessa unidade, não se faz o trabalho.QUESTÃO: Há um índice de desemprego em Cuba?JIMENEZ: Vamos ver o que se entende por desemprego, pois este é umgrande problema. Olhe, em Cuba, no ano de 1990 não existia a maismínima sombra de desemprego. Porém chegou a crise econômica efecharam as fábricas. Fecharam por falta de combustível, por falta dematéria-prima. O que ocorreu? Muitos destes trabalhadores ficaram sememprego porque as fábricas se fecharam. Agora, aqui está o problema, oque se entende por desemprego? Quando uma fábrica fechou em Cubaporque não tinha matéria-prima, porque não tinha combustível, otrabalhador foi para sua casa. Sentou-se em sua casa porque não tinhatrabalho. E assim sentado em casa, recebia 60% do salário sem fazernada. Porque se lhe passava 60% do salário? Por uma razão simples.Nós não podíamos permitir que um pai de família que ficara sem trabalho,sem o mínimo de recursos e seus filhos passassem fome. Nós nãopoderíamos permitir, porque a revolução tem que ver, antes de tudo, ohomem. Portanto preferiu-se carregar o custo social dessa situação e nãorepassá-la ao infeliz homem, que além do mais não tinha culpa que suafábrica tivesse sido fechada. Se você entende como desemprego aqueleindivíduo que passou a sua casa e que recebe 60% do seu salário, nessemomento de maior crise há 250.000 desempregados. 250.000trabalhadores que se foram para sua casa para ganhar 60%, na mesmamedida em que reabrindo as fábricas foram chamados novamente ereincorporados ao processo produtivo. Nessa fábrica ou em outro lugar.Porém se deu trabalho a essa gente novamente, para não ter quepassar-lhes 60% sem fazer nada. Nestas condições, tem atualmente emCuba tem 10.000 desempregados. 10.000 mil pessoas que estão em suacasa, recebendo todavia 60%, porque não se encontrou a possibilidadede lhe dar um novo emprego, porém quando se encontra deixará de serum desempregado. Isso é, em essência que nós entendemos pordesemprego. Inversamente, nós temos um grande problema, nos faltamão-de-obra. Pode entender-se isso? Pode entender-se. Cuba é um paísque tem 74% de sua população vivendo em cidade, e 26% vivendo emzonas rurais. Porque? Porque com o triunfo da revolução os filhos doscamponeses tiveram oportunidade de estudar, fazer cursos técnicosprofissionais e não quiseram voltar ao campo, é lógico. E portanto, seesses 26% de pessoas no campo, da população rural - e existe nesses26%, crianças, anciãos, existem mulheres e homens que trabalham naburocracia (em todos os países existe burocracia) - você vai se dar contade que efetivamente os que trabalham na terra vem a ser um 7 ou 8% dapopulação. Para nós falta mão-de-obra no campo e ninguém quertrabalhar no campo. Se os 10.000 quisessem trabalhar, poderiamtrabalhar no campo, porém não querem trabalhar no campo. Nós temosum grande problema, inclusive neste momento nós estamos dando a terraem qualidade de usofruto a todos que queiram ir trabalhar no campo.Damos a estes, inclusive, a possibilidade de obter crédito para quecultivem a terra. Oportunidade de construir sua casinha no campo para irao trabalho. Mas as pessoas não querem terra, as pessoas preferem oitohoras de trabalho numa fábrica ou oito horas de trabalho em outrorecinto. Temos, paralelamente, escassez de mão-de-obra. Escassez damão-de-obra diante da crise econômica que nós solucionaríamos muitofacilmente. Poderíamos solucionar através do incentivo, através damecanização agrícola. Em Cuba, digamos, a safra açucareira - que é oprincipal produto de exportação de Cuba - estava mecanizada emaproximadamente 72%; mecanizado em geral, desde o corte, a colheita,tudo. Em outros setores da agricultura, a colheita de mamão e outrastambém há uma ampla mecanização. Uma máquina trabalha por 800trabalhadores. Não havia problema. Não havia camponeses, porém haviaos operadores que manuseavam a máquina e assim era suprida anecessidade de trabalhadores. Além disso, não semeávamos frutos quefossem muito trabalhosos. Não semeávamos frutos que não se podiammecanizar. Porque sabíamos que não teríamos mão-de-obra. Preferíamosimportar do que plantá-los. Depois da crise econômica começou a faltar apeça de reposição, começou a faltar o combustível, começou a faltar oherbicida, começou a faltar o fertilizante e então tivemos que nos voltarmais à mão-de-obra do que à mecanização, porque não tínhamos maisrecurso para mantê-la. Com isso tornou-se mais importante que hajamaior mão-de-obra no campo. Dito em outras palavras, um campesinobrasileiro seria feliz em Cuba, porque imediatamente lhes daríamos umpedaço de terra, que para nós seria um alívio, porque o homemcomeçaria a produzir. Como se vê esse é um grande problema em Cuba,porque ninguém quer trabalhar na terra.QUESTÃO: A minha pergunta é a seguinte: nós sabemos que a genteainda está num país onde muito se disse que "os comunistas comemcriancinhas e tomam a mulher dos outros". Eu queria saber o seguinte,visto que a imprensa divulgou a algum tempo que o povo cubano estavasaindo de seu país. Porque o parlamento, sabendo que a situaçãodaquele povo está difícil, não deixou as pessoas saírem por livre eespontânea vontade?JIMENEZ: A emigração tem sido um fenômeno muito manipulado pelaimprensa. Muito manipulado pelo seguinte. A emigração de Cuba para osEUA tem existido historicamente. Tem existido desde o século passado.José Marti, que lutou pela independência de Cuba foi emigrado para osEUA, e ali nos EUA se juntou entre os milhares de cubanos que viviamnos EUA levando-os para a guerra contra a Espanha. No século passadojá viviam milhares de cubanos nos EUA, e no nosso século, a emigraçãocontinua para os EUA. Nos EUA já viviam dezenas de milhares decubanos; e quando chegou a revolução, todas as pessoas comprometidascom o regime de Batista, com a ditadura, também emigraram. Todos oque puderam se foram. E toda a burguesia cubana foi para os EUA e seincrementou a emigração, chegando a ser centenas de milhares os queviviam nos EUA; além disso, essa burguesia levou a metade dosmédicos de Cuba. Cuba tinha 6.000 médicos e se foram 3.000. Essaburguesia levou a imensa maioria dos técnicos de Cuba; e chegaram a sercentenas de milhares os cubanos que viviam nos EUA. E é aqui que secomeça a complicar o problema. Porque começa a complicar-se?Primeiro, em razão do bloqueio norte-americano a Cuba. Mediante essebloqueio nenhum cidadão que vivera nos EUA podia visitar Cuba, enenhum cidadão cubano que tivesse família nos EUA ou que quisesseemigrar para trabalhar nos EUA poderia ir-se para os EUA. E se umnorte-americano viesse a Cuba, poderia ser punido com 10 mil dólares outrês meses de prisão. Se um cubano pedia visto para ingressar legalmentenos EUA não se lhes dava permissão para a entrada nos EUA. Se tivesseuma mãe, enferma, morrendo nos EUA, não podia vê-la. Se morriaalguém não poderia visitar. Não podia visitar a seu irmão e muito menostrabalhar nos EUA, porque eles não deixavam ele entrar. Paralelamente aessa situação dezenas de emissoras de rádio norte-americana transmitiampara Cuba, incitando as pessoas para que emigrassem ilegalmente, a que"fugissem do comunismo" - se dizia assim, "fugir do comunismo". O queocorre? Muitas pessoas optavam por sair ilegalmente do país, em umbarco, em uma lancha, para se encontrar com sua família - família quefazia dezenas, dez, vinte anos que não via, seu pai, mãe, irmãos. Ou parair trabalhar nos EUA - e isto temos que reconhecer. Os EUA é o paísque tem o poderio econômico mais alto do mundo e há quem quer ir paralá para viver melhor, porque Cuba não oferece riquezas. Cuba ofereceigualdade social, não oferece um carro último modelo, não oferece"residências", oferece apartamentos. E há quem queira ter "residências",há quem queira ter "automóveis do último modelo", e isto é humano.Voltando ao tema: nos EUA vive 25 milhões de latino-americanos.Desses 25 milhões de latino-americanos menos de um milhão sãocubanos. Ninguém, nas propagandas norte-americanas, fala dos 24milhões de latino-americanos - são mexicanos, são colombianos, sãodominicanos, são porto-riquenhos, desses ninguém fala. A grandeimprensa norte-americana fala do "um milhão de cubanos" porque édesses que lhe convém falar. Trata-se de manipulação da informação.Eles diriam que um mexicano cruza as fronteiras dos EUA fugindo docomunismo? Não. O México não é comunista. Um colombiano se vaipara os EUA fugindo do comunismo, não, na Colômbia não temcomunismo. Porque se vai um mexicano ou um colombiano problema éeconômico, é basicamente econômico, uma emigração econômica. Aemigração em Cuba é o mesmo. É uma emigração de tipo econômica ede tipo humana. De tipo econômica porque há pessoas que querem vivermelhor, e de tipo humana porque há pessoas querendo encontrar seusfamiliares. Quando um mexicano, ou outro latino-americano qualquertenta entrar ilegalmente nos EUA, ele é detido. Nos EUA os colocamnum avião e os devolvem ao seu país. Se um cubano sai ilegalmente deCuba e chega a Flórida, esse cubano é recebido com um microfone paraque declare que está fugindo do comunismo. Para este cubano se lhe dátrabalho. Para ele se dá residência. É um herói. O mexicano não. Omexicano leva pau, mas o cubano é um herói. A grande imprensa oconverte em um herói. Outra manipulação a mais. Agora bem, em agostode 1994, Cuba se cansou desta situação. Nós decidimos tomar umadeterminação e assim fizemos: levantamos a fronteira. Dirigimono-nos aosEUA através de nota diplomática publicada em todos os periódicos, queCuba se negava a seguir cuidando da fronteira dos EUA e que, a partirdeste momento, todos os que emigravam de forma considerada ilegalpara os EUA seria considerada legal para nós. Portanto todo cubano quequisesse ir encontrar seus familiares ou trabalhar nos EUA podia pegarum barquinho em Cuba e ir-se. A polícia cubana começou a ajudar atodos o que queriam ir com seu barco até a costa e que entravam no mare cuidavam até doze milhas para que não se perdessem no mar. Quandoisto ocorreu, saíram de Cuba 32 mil cubanos. Trinta e duas mil pessoaspegaram um barco e se foram: queriam emigrar e os EUA não lhes davamvisto, não deixavam eles entrarem legalmente em seu território. Quandoviram trinta e duas mil pessoas em suas mãos se horrorizaram, e já nãoqueriam tantos lutadores contra o comunismo nos EUA. Se horrorizaram.E então aconteceu com os lutadores contra o comunismo que forampresos e os mandaram presos para a base de Guantânamo. Que foi quese passou? Sucedeu o que nós queríamos que sucedesse. Obrigamos,nesta forma de pressão, aos EUA a negociar conosco um tratadomigratório e teve-se que firmar pela primeira vez um tratado migratório.Um tratado migratório pelo qual os EUA se comprometem, anualmente, adar 20.000 vistos aos cubanos para que possam entrar em territórionorte-americano, ver seus familiares, poder trabalhar se o quiserem;podem trabalhar se quiserem. Nós jamais pusemos restrições para que aspessoas emigrassem, a restrição quem pôs foi o bloqueio, mas elespuseram a responsabilidade sobre nós - mais uma manipulação. Com istoos EUA tiveram que aceitar 20.000 vistos legais para os cubanos; tiveramque aceitar que todas as pessoas que saiam ilegalmente de Cuba em umalancha, em uma balsa, sejam devolvidas a Cuba - como se faz com osoutros países - e têm cumprido esse acordo até o presente momento.Quando alguém sai ilegalmente de Cuba eles o acolhem e os devolvem.A pessoa que sai de Cuba não foge do comunismo, porque se fosseassim, eles que são tão bons, não nos trariam de volta essas pessoascomo estão fazendo. Em Cuba não se persegue ninguém, porque os EUAnos devolvem as pessoas e nós simplesmente as colocamos para trabalharno mesmo lugar onde estavam trabalhando. O problema não é que fujam;o problema é de natureza econômica ou familiar. É isto em essência oproblema da emigração. Um fenômeno muito manipulado pela imprensainternacional que tem traços de realidade, mas que não se distancia doresto da realidade latino-americana.QUESTÃO: Como é a participação das mulheres nesses espaços depoder?JIMENEZ: Em Cuba, a força de trabalho feminina é de 42,3%, quase50% - quase igual aos homens; 65% de todos os técnicos que temos emCuba são mulheres; 43% de todos os cientistas que temos em Cuba sãomulheres; 70% de todos os técnicos que trabalham no setor da educaçãosão mulheres; 80% de todos os técnicos da saúde são mulheres; 29% detodos os dirigentes que temos nos país são mulheres; 53,57% dosdirigentes dos setores sindicais são mulheres e, dessas dirigentes sindicais26% são dirigentes nacionais. Creio que esses dados dão a medida daimportância que tem as mulheres em Cuba em todos os âmbitos dasociedade, do ponto de vista laboral, do ponto de vista técnico, do pontode vista profissional. Tanta importância têm, que isto nos cria problemas,tremendos problemas. Vocês sabem por quê ? Porque temos umproblema demográfico em Cuba muito sério. Digamos, mais de 50% dapopulação cubana tem menos de 30 anos, e 65% da população cubanatem menos que 40 anos - quer dizer, em idade reprodutiva, em que amulher está numa idade reprodutiva. A mulher cubana já não tem comomédia 2 filhos, têm como média um filho. Inclusive estatisticamente emCuba, em média, cada mãe não está deixando uma mulher parasubstituí-la. Em conseqüência, nossa população envelhece e diminui.Envelhece porque todos os casais que são jovens hoje e não deixam doisfilhos, vão fazendo com que diminua a população em Cuba. Além dissoessas pessoas vão, com os passar dos anos, se convertendo-se emanciãos e, no futuro, cada médico da família terá que ser um médico develhos para atender a muitos anciãos. Isto, no futuro, pode nos trazermais falta de mão-de-obra, porque vai diminuir nossa população. Amulher cubana, precisamente por ter uma importância econômica, por teruma importância científica, tem deixado de se ver a si mesma como umamera reprodutora, tem deixado de ser um objeto - a mulher que vem aomundo para cozinhar, para lavar, para parir. Já não se vê assim. Se vêcomo uma cientista, se vê como uma dirigente e, portanto, prefere terapenas um filho, e não dois, nem três, porque isso agravaria sua posiçãoprofissional. Uma cientista que está fazendo experimentos, não conseguedeter seus experimentos durante o tempo necessário para ter um filho, epor isso decide ter apenas um filho somente. E a partir desse filho, dedicasua vida à ciência e ao único filho que tem. Esse é um grande problemademográfico que nós já temos hoje e que temos que enfrentar. Alémdisso, a mulher estudou e tem ao seu alcance a possibilidade de ser elaquem decide de que tamanho vai ser sua família, quantos vão ser osintegrantes de sua família... Imaginem vocês... Eu tenho amigos quetiveram que abordar a sua esposa e dizer-lhe: "se você não tiver mais umfilho, eu me divorcio de você e vou ter um filho com outra companheira";quando antes era totalmente o contrário, a mulher sempre estava solícita ater mais de um filho com seu companheiro.
1 de ago. de 2013
ELEIÇÕES E DEMOCRACIA EM CUBA
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